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O atendente puxa o cadastro, lê o nome na tela, levanta os olhos e solta um "opa, xará". Dois desconhecidos acabam de ganhar um vínculo de dois segundos, feito de nada além de uma coincidência de registro civil.
A palavra que costurou os dois não é gíria de balcão. É uma frase inteira em tupi, com pronome e substantivo, que o português engoliu colada e repete até hoje sem desconfiar do que tem dentro.
I
A raiz
Xará vem de xe rera, duas palavras do tupi antigo, língua falada na costa do Brasil quando as caravelas chegaram. Xe é eu, e também meu. Rera é nome. Juntas, dizem exatamente isto: meu nome.
O tupi não tinha palavra solta para meu. O pronome grudava no substantivo e resolvia posse e pessoa de uma vez, xe rera, meu nome, xe py, meu pé. Quem falava carregava a primeira pessoa dentro de cada coisa que chamava de sua.
Rera também não anda sozinho. Pertence à classe dos relacionais, substantivos que trocam a letra inicial conforme o dono: tera quando está solto, rera quando é meu, sera quando é dele. O nome mudava de forma para dizer de quem era.
Quem descreveu essa mecânica foi um jesuíta. A gramática de José de Anchieta, impressa em Coimbra em 1595, catalogou o vaivém do t, do r e do s, e é por causa dela que ainda dá para reconstruir a frase que virou xará.
O x da grafia não é enfeite português. Os padres precisavam escrever o som chiado do tupi e usaram a letra que a ortografia da época já reservava para esse barulho. O chiado inicial de xará é o pronome que os índios diziam há quinhentos anos.
A colagem foi obra do ouvido. O português escutou bloco único, comeu o e da primeira sílaba e empurrou a tônica para o fim, produzindo xará. Os dicionários brasileiros ainda guardam a forma intermediária, xerera, e a variante xarapim.
Xarapim conta a mesma história com outro tijolo. A forma antiga vem de xe rapixara, meu semelhante, e desenha a relação pelo lado da igualdade em vez do nome. Duas palavras diferentes, o mesmo pronome preso na frente.
Há ainda um terceiro sobrevivente. Xerimbabo, de xe rimbaba, minha criação, é o bicho que vive perto da gente, e o termo continua em uso em texto de biólogo e em lei ambiental, com o meu tupi intacto na primeira sílaba.
Entre os tupinambás, nome não era etiqueta de nascença. Era patrimônio que se conquistava e se acumulava ao longo da vida, e quem juntava muitos nomes virava homem de peso, reconhecido de aldeia em aldeia pelo tamanho da coleção.
Nesse mundo, dizer meu nome era dizer o que se tinha feito. Encontrar alguém que carregava o mesmo nome não era coincidência de cartório, era topar com um par, alguém que passou pelas mesmas provas para chegar à mesma palavra.
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O português levou do tupi milhares de nomes de bicho, de planta e de lugar. De xará levou outra coisa: um jeito de chamar alguém, com o pronome indígena ainda grudado dentro da palavra.
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II
A viagem
A rota de xará não passa por Lisboa. Passa pela língua geral, o tupi da costa que missionários e colonos organizaram e transformaram em língua franca, falada por índio, mameluco e português no mesmo quintal.
Em São Paulo do século XVII, a língua geral era o que se falava em casa. O português ficava para o papel do tabelião e para a missa, e os bandeirantes levaram a fala indígena sertão adentro, até onde o mapa não chegava.
No Norte a mesma coisa acontecia com outro nome. O nheengatu virou a língua da colonização do Amazonas, usada por missionário, comerciante e tropa, e chegou a ser mais útil que o português para quem descia o rio.
Em 1757, o Diretório dos Índios, assinado sob o Marquês de Pombal, proibiu a língua geral e impôs o português em toda a colônia. A decisão tirou o tupi do papel e do púlpito, mas não conseguiu tirá-lo da boca.
O que sobrevive de uma língua banida é justamente o que ninguém precisa escrever. Apelido, vocativo, palavra de intimidade: xará atravessou o cerco por ser doméstica demais para figurar em documento e por nunca ter dependido de tinta.
O empréstimo típico do tupi é nome de coisa nova. Abacaxi, capivara, mandioca, tatu, pipoca, jacaré: o português precisava batizar o que não conhecia e pegou o nome pronto de quem já morava aqui.
Xará não tem nada dessa lógica. O português já sabia dizer que duas pessoas dividem o mesmo nome, e tinha uma palavra grega guardada para o caso, homônimo, herdada dos gramáticos e usada até hoje em compêndio.
O que faltava não era o conceito, era o gesto. Homônimo classifica de longe, com cara de verbete; xará cumprimenta de perto, na fila, no balcão, na obra. Uma palavra é do dicionário, a outra é da esquina.
O registro escrito chegou tarde e por vias brasileiras. Só no fim do século XIX, quando os dicionaristas passaram a catalogar o que o português do Brasil tinha de próprio, a palavra apareceu impressa, já espalhada do Norte ao Sul.
Teodoro Sampaio publicou em 1901 o inventário do tupi na geografia nacional e mostrou o tamanho da herança nos nomes de lugar, de Ipanema a Itaquera. Xará ficou de fora da lista por um detalhe: não é topônimo, viajou pela boca e não pelo mapa.
A América espanhola montou a mesma peça com outro material. Lá o trabalho é feito por tocayo, e uma das explicações mais repetidas puxa a palavra do nauatle tocaitl, nome, embora a origem siga em disputa entre os dicionários.
O inglês não tem equivalente e se atrapalha na tradução. Namesake é quem foi batizado em homenagem a outro, o que embute hierarquia e sentido único: alguém veio antes, alguém veio depois, e um deve o nome ao outro.
Xará não tem essa escada. Os dois chegaram ao mesmo nome por acaso e ficam no mesmo degrau, o que obriga qualquer tradução a gastar uma frase inteira. Palavra que não cabe em outra língua costuma ser herança, não importação.
III
O que fica
A palavra entrou no português sem se dobrar às regras dele. Xará serve aos dois gêneros sem mudar de forma, o xará e a xará, e nenhum falante sente falta de um feminino próprio para completar o par.
O uso também esticou para fora de gente. Hoje se diz xará de time, de cidade e de jogador, e a coincidência de nome vira motivo de conversa mesmo quando um dos lados é um clube ou um bairro.
Em várias regiões o vocativo se soltou do sentido original. O "fala, xará" da obra e do trânsito é dirigido a estranhos sem que ninguém compare documento, e virou tratamento amistoso genérico, primo do parceiro e do chefe.
Sobra uma simetria rara. Se eu sou seu xará, você é meu xará, sem que a ordem importe, e o português tem poucas palavras assim: vizinho, colega, primo. O tupi tratava nome como laço, e o laço veio junto no empréstimo.
Xará também não está sozinho na categoria. Cutucar, de kutuk, espetar, e peteca, de petek, bater com a mão, mostram que o tupi não deixou só substantivo, deixou verbo e deixou gesto, as partes da língua que se aprendem brincando.
Dá para medir a raridade pelo inventário. São milhares de palavras de origem tupi no português do Brasil, quase todas nomes de coisa, e as que trazem um pronome indígena colado na frente se contam nos dedos de uma mão.
O trajeto fecha numa ironia limpa. Xe rera queria dizer meu nome, e o brasileiro solta xará exatamente no instante em que não sabe o nome do outro. A palavra virou do avesso e continua fazendo o mesmo serviço: apresentar dois estranhos.
Toda palavra é um fóssil.
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