A Origem das Palavras #044 · Vândalo
A Origem das Palavras

EDIÇÃO Nº 044

A PALAVRA DE HOJE

Vândalo

/ˈvɐ̃.da.lu/

De povo germânico. Vandali (tribo histórica)

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A LINHA DO TEMPO

germânia antiga → norte da áfrica → saque de roma 455 → uso medieval → revolução francesa

Etimologia de Vândalo

Quando alguém é chamado de vândalo, está sendo acusado de destruir por destruir, sem propósito, sem cultura. A palavra carrega no DNA o nome de um povo real, com língua, religião, leis e literatura próprias. Os vândalos existiram. Eram cristãos, alfabetizados, organizados. Saquearam Roma em 455 d.C. Por isso, mil e quinhentos anos depois, o nome do povo virou sinônimo de barbárie inculta. A história é injusta com quem perde.

I

A raiz

Vandali é o nome latino de uma confederação de povos germânicos orientais que habitava a região entre o Oder e o Vístula, hoje territórios da Polônia. A origem do nome é germânica, possivelmente da raiz wend-, que significa "vagar" ou "caminhar". Os vândalos eram, em algum sentido, "os errantes" ou "os viajantes".

Aparecem nos registros romanos a partir do século I d.C., descritos por Tácito e por Plínio, o Velho. Eram divididos em dois grandes grupos: os Asdingos e os Silingos. Falavam um dialeto germânico oriental aparentado com o gótico. Tinham agricultura, artesanato em metal, sistema religioso politeísta similar ao dos outros povos germânicos.

A diferença com a imagem moderna do "vândalo" é abissal. Os vândalos históricos não eram bárbaros incultos. Eram um povo organizado, com hierarquia social complexa, capacidade militar sofisticada, e ao longo do tempo absorveram elementos da cultura romana. No século IV, a maioria dos vândalos havia se convertido ao cristianismo, embora na versão ariana, considerada herética pela Igreja católica romana.

Eram, em essência, uma tribo germânica como tantas outras. O que os tornou diferentes na memória ocidental foi um evento específico.

"Em junho de 455, os vândalos entraram em Roma comandados por Genserico. Saquearam a cidade durante quatorze dias com método e disciplina, levando ouro, prata, obras de arte e parte da população como cativos. Não houve massacre indiscriminado." Procópio de Cesareia, De Bello Vandalico, século VI d.C.

II

A viagem

A história dos vândalos é uma das mais espetaculares da Antiguidade Tardia. Pressionados pelos hunos no século IV, migraram para o Ocidente, atravessaram o Reno em 406, invadiram a Gália, depois a Hispânia. Em 429, sob o comando de Genserico, atravessaram o Estreito de Gibraltar e conquistaram o norte da África. Estabeleceram um reino em Cartago que durou quase um século.

O reino vândalo africano era próspero. Controlava o comércio mediterrâneo de grãos, tinha frota naval poderosa, manteve estruturas administrativas romanas, cunhou moedas, preservou cidades. Não era estado bárbaro. Era estado pós-romano sofisticado, embora cristão ariano.

O evento que selou a reputação foi o saque de Roma em 455. O imperador romano ocidental Petrônio Máximo havia rompido um acordo matrimonial com Genserico, prometendo a princesa Eudóxia ao filho de Genserico e depois cancelando. Genserico zarpou com a frota de Cartago, desembarcou em Óstia, marchou até Roma. A cidade abriu os portões. O papa Leão I negociou com Genserico para evitar massacre, conseguindo limitar o saque a apenas pilhagem de bens, sem incêndios em larga escala nem execuções de civis.

Os vândalos passaram quatorze dias em Roma. Levaram ouro do templo de Júpiter, telhas de bronze do templo de Vênus, objetos sagrados do Templo de Jerusalém que estavam em Roma desde o saque por Tito em 70 d.C., parte da família imperial como reféns, milhares de cativos. Mas não destruíram a cidade. O saque vândalo foi, paradoxalmente, mais "civilizado" que muitos outros saques da Antiguidade.

O reino vândalo africano caiu em 534 d.C., conquistado pelo general bizantino Belisário. Os vândalos foram dispersos, absorvidos pelas populações locais, ou reescravizados. Em duas gerações, deixaram de existir como povo distinto. A língua vândala morreu. As tradições vândalas se perderam. Tudo o que sobrou foi a memória do saque de 455.

A palavra "vândalo" como insulto genérico nasceu muito depois, na França do século XVIII. Henri Grégoire, bispo e revolucionário francês, cunhou o termo vandalisme em 1794 para descrever a destruição de igrejas, monumentos e obras de arte por revolucionários radicais durante o Terror. Grégoire era cristão e revolucionário moderado, e queria condenar o ataque ao patrimônio cultural sem condenar a Revolução em si. Buscou na história um exemplo de destruição cultural, e os vândalos serviram, embora a comparação fosse historicamente imprecisa.

O termo vandalisme virou vandalism no inglês, vandalismo em espanhol e português, Vandalismus em alemão. Em poucas décadas, vândalo virou substantivo comum em todas as línguas europeias para descrever qualquer pessoa que destruísse propriedade alheia, especialmente bens culturais. O nome do povo virou pejorativo universal.

A injustiça etimológica é completa. Os vândalos históricos foram menos destrutivos em Roma do que os godos de Alarico em 410 ou os saqueadores normandos do século IX. Mas o nome dos vândalos pegou no vocabulário moderno. Os godos viraram fonte de "gótico", arquitetura sublime e estética admirada. Os normandos viraram fonte de "Normandia", região prestigiosa. Os vândalos viraram insulto.

A linguagem premia uns e pune outros sem critério aparente.

III

O que fica

Vândalo é uma das palavras mais injustas do dicionário. Pune um povo inteiro pelo evento mais lembrado de sua história, ignorando todos os outros aspectos de sua existência. O nome dos vândalos sobreviveu apenas como acusação. A língua, religião, literatura, arte e organização social vândalas se perderam completamente. Sobrou só o saque, e mesmo o saque foi mal interpretado.

A palavra ensina algo sobre como povos derrotados perdem o controle da própria narrativa. Os vândalos foram conquistados pelos bizantinos, que escreveram a história. Os romanos do papa Leão I escreveram a história. Os iluministas franceses escreveram a história. Em nenhum momento alguém vândalo teve voz para defender o povo. A linguagem registrou apenas a versão dos vencedores.

E quando hoje alguém é chamado de vândalo por riscar uma parede, quebrar uma vitrine ou pichar um monumento, está sendo equiparado, sem saber, a um povo germânico do século V que provavelmente teria perplexidade com a comparação. A linguagem é arquivo dos perdedores apenas no sentido de que preserva o que os vencedores quiseram preservar.

Os vândalos perderam tudo, inclusive o significado do próprio nome.

Toda palavra é um fóssil.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: A palavra "vândalo" vem de um povo germânico real que, ao saquear Roma em 455 d.C., destruiu a cidade de forma indiscriminada e bárbara.

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