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A LINHA DO TEMPO roma → latim medieval → jenner 1796 → pasteur → covid |
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A palavra que salvou mais vidas humanas que qualquer outra inovação médica vem, literalmente, da vaca. Não da metáfora da vaca. Não da poesia bovina. Da vaca. Animal de quatro pernas, leite, mugido. Vacina carrega na primeira sílaba o nome do bicho que ofereceu o primeiro material biológico usado para imunização em massa. I A raizVacca é a palavra latina para vaca. Atravessou intacta para o português, o italiano (vacca), o francês (vache) e o espanhol (vaca). Origem provavelmente onomatopaica, imitando o som do animal, embora linguistas debatam se vem de uma raiz proto-indo-europeia wokeh- relacionada a som baixo e profundo. O adjetivo vaccinus em latim significava "de vaca", "relativo à vaca". Aparecia em textos veterinários romanos e medievais para descrever doenças bovinas. Variolae vaccinae: a varíola da vaca. Doença pustular que afetava o úbere de vacas e podia ser transmitida pelo contato a pessoas que ordenhavam o gado. A varíola humana, variolae, era um dos piores flagelos da humanidade. Matava trinta por cento dos infectados, deixava cicatrizes terríveis nos sobreviventes. Por séculos, foi a doença mais temida do mundo, ao lado da peste.
II A viagemA história começa na Inglaterra rural do fim do século XVIII. Edward Jenner, médico do interior de Gloucestershire, observou um padrão entre as ordenhadoras de leite locais. Mulheres que tinham pego cowpox (a varíola da vaca, doença leve em humanos, com pústulas só nas mãos) pareciam imunes à varíola humana, doença mortal. O folclore rural já sabia disso há gerações. Jenner decidiu testar. Em maio de 1796, Jenner extraiu material das pústulas de uma ordenhadora chamada Sarah Nelmes, que tinha contraído cowpox de uma vaca chamada Blossom. Inoculou esse material em um menino de oito anos chamado James Phipps. O menino teve uma reação leve. Semanas depois, Jenner inoculou James com material de varíola humana real. O menino não desenvolveu a doença. Estava imune. Jenner publicou seus resultados em 1798 e batizou o procedimento de vaccination, do latim vaccinus. A palavra colava com a fonte do material biológico. Vinha da vaca. Era literal e descritiva. Não havia metáfora ali. A vaccination se espalhou pelo mundo no início do século XIX. Napoleão fez vacinar todo o exército francês em 1805. A prática chegou às colônias americanas, à Rússia, à Índia, ao Brasil, levada por médicos militares e missionários. A varíola começou a recuar, lentamente, pela primeira vez na história humana. A virada conceitual mais importante veio quase um século depois. Louis Pasteur, em 1881, desenvolveu a vacina contra o antraz, e em 1885 a vacina contra a raiva. Nenhuma das duas usava material de vaca. Mas Pasteur, por respeito explícito ao trabalho de Jenner, manteve o termo vaccin em francês. A partir dali, vacina deixou de significar literalmente "de vaca" e passou a significar qualquer preparação biológica que induzisse imunidade. A palavra ficou bovina mesmo quando o conteúdo deixou de ser bovino. A varíola foi declarada erradicada do planeta em 1980 pela Organização Mundial da Saúde. A primeira e única doença humana eliminada por intervenção médica. Tudo começou com uma vaca chamada Blossom, num pasto inglês, em 1796. A pele preservada de Blossom hoje está pendurada na biblioteca da St. George's Medical School em Londres. No Brasil, a história das vacinas é mais turbulenta. A Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro de 1904, foi um motim popular contra a vacinação obrigatória contra varíola. A população, mal informada e maltratada por uma campanha autoritária, viu na vacinação uma invasão do corpo. O nome bovino da palavra entrou no folclore: havia rumores de que quem se vacinasse criaria chifres ou começaria a mugir. O imaginário popular não estava completamente errado sobre a etimologia. Errou apenas sobre a biologia. III O que ficaA pandemia de 2020 trouxe a palavra de volta para o centro da conversa pública mundial. Bilhões de pessoas falando, lendo, debatendo, recebendo vacinas. Pouca gente parou pra pensar que estava usando, literalmente, o nome de um animal de fazenda do século XVIII. Vacina é uma das palavras mais agradecíveis do dicionário. Carrega, no nome, a homenagem permanente a um animal que ofereceu material biológico sem ser consultado. A vaca Blossom não teve voz. Mas teve nome inscrito em cada dose aplicada nos últimos duzentos anos. A linguagem, às vezes, sabe ser justa. Mesmo quando a história não foi. Toda palavra é um fóssil. |
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O RITUAL DIÁRIO Todo dia, às 12:12. Uma palavra. Dois minutos. A Origem das Palavras. Uma palavra. Uma história. |