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Utopia é o projeto político que nunca se realiza, o horizonte que recua na medida em que avançamos. Dizemos "é utopia" com um sorriso cansado, querendo dizer: é bonito, mas impossível. Mas a impossibilidade já estava no nome.
Thomas More cunhou a palavra sabendo exatamente o que fazia: construiu um jogo de palavras grego em que o lugar perfeito é, por definição, um lugar que não existe. A utopia nasce derrotada, e é precisamente por isso que nunca morre.
I
A raiz
Ou é partícula grega de negação: não. Topos é lugar. Ou-topos: não-lugar. A palavra foi fabricada por Thomas More para o título de seu livro de 1516, Libellus vere aureus nec minus salutaris quam festivus de optimo reipublicae statu deque nova insula Utopia, reduzido pela posteridade a simplesmente Utopia.
More era humanista inglês, Lord Chanceler de Henrique VIII, amigo de Erasmo de Roterdã e latinista refinado. Seu grego era sólido.
Ao construir o nome da ilha imaginária onde vigorava a república perfeita, jogou deliberadamente com a ambiguidade: Utopia poderia ser lida como Ou-topia (não-lugar) ou como Eu-topia (bom-lugar, do grego eu, bem).
O trocadilho bilíngue era intencional, More o explica nos versos latinos que abrem o livro, onde a ilha anuncia: "Os filósofos me chamam Utopia; mereceria ser chamada Eutopia".
A ilha Utopia de More não era apenas sonho: era sátira. O livro criticava indiretamente a Inglaterra de seu tempo, as injustiças da cercação dos campos, a crueldade das leis penais, o desperdício da guerra, usando o artifício do lugar inexistente onde tudo funcionava ao contrário. O não-lugar era um espelho do lugar real.
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"Utopia: assim chamei minha ilha. A palavra diz que não existe em parte alguma. Mas aqueles que a amam quereriam que existisse em toda parte." Thomas More, poema introdutório de Utopia, 1516.
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II
A viagem
O livro foi escrito em latim, o que garantiu circulação imediata nos círculos intelectuais europeus. A primeira edição foi impressa em Lovaina em 1516, com prefácio de Erasmo. Traduções para inglês, alemão, italiano e francês chegaram ao longo do século XVI. A palavra utopia migrou diretamente do título latino para cada língua sem tradução, como nome próprio que se tornara substantivo comum.
O processo linguístico foi raro e documentado: uma palavra literária inventada convertida em conceito filosófico em menos de um século. Já no fim do século XVI, utopia designava genericamente qualquer projeto de sociedade ideal, sem referência ao livro de More.
No século XVII, a palavra era de uso corrente em filosofia política. Bacon a pressupõe ao escrever a Nova Atlantis (1627); Campanella dialoga com ela na Cidade do Sol (1602).
O adjetivo utópico surgiu no mesmo período, passando a designar qualquer proposta considerada irrealizável por idealismo excessivo.
O sentido pejorativo se estabeleceu com o socialismo do século XIX: Marx e Engels chamaram de "socialismo utópico" as correntes que propunham reformas sociais sem análise das contradições materiais do capitalismo, Saint-Simon, Fourier, Owen. Para eles, era utópico o que não era científico, ou seja, o que não tinha método.
Ironicamente, o próprio marxismo foi chamado de utópico por seus críticos. A palavra migrou para arma de debate político: chamar algo de utópico é desqualificá-lo como sonho sem ancoragem real.
Mas a defesa do utópico também tem tradição: Ernst Bloch, em O Princípio Esperança (1954–1959), propôs resgatar o utopismo como função antropológica fundamental, a capacidade humana de imaginar o que ainda não existe como motor do que virá a existir.
Em português, utopia tem uso documentado desde o século XVIII, inicialmente como referência direta ao livro de More. O sentido corrente de "projeto irrealizável" se consolidou no século XIX, acompanhando os debates europeus sobre socialismo e reforma social. O Brasil republicano usou a palavra intensamente, utopia da abolição, utopia da república, utopia do desenvolvimentismo.
O campo semântico expandiu: utópico, utopismo, utopista, distopia (o não-lugar negativo, o lugar-pesadelo, que emergiu como gênero literário próprio no século XX com Huxley, Orwell e outros). Distopia é a sombra da utopia, o mesmo mecanismo, invertido: imaginar o pior lugar possível para criticar tendências do presente.
III
O que fica
More construiu um armadilha semântica que dura quinhentos anos. A utopia perfeita é, por definição, inexistente. Mas o inexistente tem função: é o polo magnético que orienta o movimento. Uma sociedade que não consegue imaginar um arranjo melhor do que o atual perdeu o que os gregos chamariam de elpis, a esperança como atividade cognitiva, não como sentimento passivo.
A etimologia guarda a tensão inteira. Ou-topos é negação, ausência, impossibilidade. Eu-topos é aspiração, beleza, desejo. More deixou as duas leituras abertas no mesmo fonema para que nenhuma vencesse a outra. O não-lugar que seria um bom-lugar: a utopia como espaço que existe apenas enquanto perseguido.
O que a palavra ensina, afinal, é que nomear o impossível já é um ato político. Dar nome ao que não existe é a primeira etapa de fazê-lo existir, ou de manter viva a exigência de que exista. More foi executado por Henrique VIII em 1535. Dezenove anos depois do livro. O lugar que não existia sobreviveu ao homem que o inventou.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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