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A LINHA DO TEMPO roma → instrumento de tortura → emprego → segunda-feira |
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Segunda-feira, 7h da manhã, despertador toca. Hora do trabalho. A palavra que você usa pra descrever o que faz das 9 às 18 nasceu como nome de um instrumento de tortura romano. E nenhuma etimologia no mundo é mais honesta do que essa. I A raizTripalium vem de tri- (três) + palus (estaca, pau). Três estacas. Era um instrumento usado para imobilizar animais de grande porte para ferragem ou tratamento. Em algum momento, passou a ser usado também como instrumento de castigo para escravos e prisioneiros. Três estacas fincadas no chão, onde a pessoa era presa e punida. Do instrumento nasceu o verbo tripaliare: torturar, causar sofrimento no tripalium. Do verbo nasceu o substantivo que se espalhou pelas línguas românicas. Travail em francês. Trabajo em espanhol. Trabalho em português. Travaglio em italiano (que hoje significa mais "agonia" ou "trabalho de parto"). A raiz é sofrimento. Não é produção, não é criação, não é realização. É dor.
II A viagemNo latim clássico, a palavra para "trabalho" era labor (esforço, fadiga) ou opus (obra, resultado). Labor deu origem ao inglês labor e ao conceito de "laborar". Opus deu origem a "obra", "operar", "cooperar". As duas palavras coexistiam e cobriam aspectos diferentes: labor era o esforço, opus era o resultado. Tripalium era vulgar, marginal, do povo. Não aparece em Cícero nem em Virgílio. Vive no latim falado nas ruas, nos mercados, nas propriedades rurais. E é exatamente por isso que sobreviveu nas línguas românicas: as línguas vulgares nasceram do latim vulgar, não do clássico. A transição de "instrumento de tortura" para "atividade penosa" aconteceu no latim tardio e no romance primitivo. Tripaliare deixou de significar "torturar no tripalium" e passou a significar "sofrer", "penar", "esforçar-se dolorosamente". No francês antigo, travailler significava sofrer, padecer. Só a partir do século XVI é que travailler se estabilizou como "trabalhar" no sentido moderno. A história paralela em inglês é reveladora: work vem do germânico werk e sempre teve conotação mais neutra. Travel (viajar), porém, vem do francês travail (trabalho/sofrimento). Para os ingleses medievais, viajar era tão penoso que usavam a palavra francesa para sofrimento. Trabalhar (work) podia ser neutro. Viajar (travel) era tortura. Em português, "trabalho" substituiu completamente labor na fala cotidiana. "Labor" sobreviveu apenas em contextos formais (laboratório, elaborar, colaborar). "Obra" manteve o sentido de resultado concreto (obra de arte, obra de construção). Mas "trabalho" cobriu tudo: o esforço, o emprego, a atividade, a ocupação, a profissão. No Brasil, a relação entre trabalho e sofrimento tem uma camada adicional: três séculos de escravidão. O trabalho escravo no Brasil colonial era, literalmente, tortura física imposta sobre corpos imobilizados. O tripalium etimológico e o tripalium histórico se encontraram no mesmo território. Hoje, quando o brasileiro diz "vou pro trabalho" na segunda-feira de manhã com cara de quem vai para o sacrifício, está usando a palavra mais etimologicamente precisa possível. A língua sabe. Mesmo que o falante não saiba. III O que fica"Trabalho" é a palavra mais usada em qualquer economia e carrega, no DNA, a memória de que nem sempre foi escolha. Foi imposição. Foi castigo. Foi dor. A língua registrou isso antes que qualquer sociólogo escrevesse sobre alienação do trabalho. Marx argumentava que o trabalho no capitalismo era sofrimento. A etimologia já sabia, mil anos antes. O instrumento de três estacas desapareceu. A palavra que nasceu dele aparece 200 milhões de vezes por dia em bocas brasileiras. E toda segunda-feira de manhã, o som que sai da sua boca carrega o eco de um instrumento romano de tortura. A língua não mente. Mesmo quando a gente finge que está tudo bem. Toda palavra é um fóssil. |
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O RITUAL DIÁRIO Todo dia, às 12:12. Uma palavra. Dois minutos. A Origem das Palavras. Uma palavra. Uma história. |