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Numa sala de audiência, alguém levanta a mão e promete dizer a verdade. O juiz chama a pessoa de testemunha, e ninguém no salão repara que o nome do cargo não fala de olhos, de memória nem de honestidade. Fala de aritmética.
A cena guardada dentro da palavra é mais simples que qualquer tribunal. Duas pessoas discutem, cada uma com a própria versão, e uma terceira está ali por perto, de pé, sem entrar na briga. Roma batizou o sujeito parado, e o nome dele atravessou dois mil anos até chegar ao cartório, ao testamento e à passeata.
I
A raiz
A palavra vem do latim testis, testemunha. E testis, pela reconstrução mais aceita, vem de uma raiz indo-europeia montada com duas peças encaixadas: tri, três, e sta, ficar de pé. Testemunha, na origem, é o terceiro que está de pé.
A cena embutida dispensa explicação. Dois homens discutem sobre um limite de terra, um boi vendido, uma dívida antiga. Um terceiro está por perto, sem ganhar nem perder nada com o desfecho. Esse terceiro, e só ele, o latim chama de testemunha.
Repare no que a palavra não diz. Não fala de vista boa, de ouvido apurado, de memória nem de caráter. A autoridade da testemunha romana vem de geometria pura: ela não é parte. Vale por estar fora da briga, não pela qualidade do que enxergou.
O latim tinha ainda uma segunda palavra para o mesmo cargo, e ela puxava para o lado oposto. Superstes era quem tinha atravessado o acontecimento e continuava de pé depois dele. Não o vizinho de fora, mas quem viveu o fato por dentro e sobrou para contar.
Roma escolheu o de fora. O direito romano se construiu em cima de testis, e do tronco dele saíram um verbo, testari, declarar diante de testemunhas, e um substantivo, testimonium, o depoimento. O português puxou testemunho direto de testimonium.
Testemunha veio depois, moldada por cima de testemunho, e nasceu feminina. Por causa da forma, até hoje o homem que depõe num tribunal brasileiro é chamado de a testemunha, com artigo feminino, e ninguém estranha.
Antes de cartório, contrato registrado e gravação, testemunha era infraestrutura. Um negócio valia pela quantidade de gente que tinha visto o negócio acontecer. Na mancipatio, o ritual de transferir propriedade, a lei exigia cinco cidadãos presentes, mais um homem segurando a balança de bronze.
O testamento nasce da mesma exigência. Testamentum é, ao pé da letra, o ato de chamar testemunha, e o direito pretoriano pedia sete delas em volta da tabuinha. Quem dispõe dos próprios bens é o testador, e quem parte sem deixar o documento é declarado intestado, ou seja, sem testemunha.
Depois vieram os prefixos, e cada um mudou o lugar da testemunha na cena. Ad testari virou atestar, dar testemunho a favor de alguma coisa, e deixou no português o atestado. Con testari virou contestar, e no foro romano litem contestari era abrir a disputa chamando testemunhas para os dois lados.
Pro testari é declarar na frente de todos, diante das testemunhas reunidas, e chegou até nós como protestar. De testari era invocar os deuses como testemunhas contra alguém, amaldiçoar em praça pública, e virou detestar, esvaziado de deuses e reduzido a antipatia particular.
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Roma não definiu a testemunha pelo que ela enxerga. Definiu pelo lugar onde ela está: fora da disputa, de pé, fazendo o número três.
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II
A viagem
Na travessia para o português, a família cresceu e se espalhou por ambientes que não conversam entre si. Testemunha ficou no tribunal, testemunho foi para o depoimento e para o púlpito, testemunhar virou verbo de quem viu e também de quem conta o que viu.
Em Portugal, testemunho ganhou um uso que o brasileiro estranha na primeira vez. O bastão que os corredores passam de mão em mão no revezamento chama-se testemunho, porque é o objeto que prova a passagem, o terceiro presente entre dois atletas em movimento.
Protestar deu a volta mais longa de todas. Em abril de 1529, na Dieta de Espira, um grupo de príncipes e cidades alemãs assinou uma protestatio contra a decisão do imperador sobre a fé praticada nos territórios deles. Era declaração pública e solene, no sentido latino exato.
O documento rendeu um apelido aos signatários, e o apelido colou de vez. Protestante virou o nome de metade do cristianismo ocidental, tirado de um verbo que, no começo, só queria dizer declarar na frente de testemunhas.
No caminho, protesto foi perdendo a solenidade e ganhando a rua. Hoje a palavra puxa faixa, buzinaço e passeata. O sentido antigo sobreviveu num canto burocrático: o protesto de título em cartório ainda é o ato formal de declarar em público que uma dívida não foi paga.
Atestado seguiu o percurso contrário e virou papel. Atestado médico, atestado de matrícula, atestado de antecedentes. Cada um repete a promessa original de que alguém esteve perto do fato e responde por ele, mesmo quando a testemunha de hoje é um carimbo.
O galho mais improvável da árvore leva ao corpo. Os romanos chamavam de testiculus o diminutivo de testis, a pequena testemunha. A palavra atravessou praticamente intacta até o português, e testículo continua sendo, na letra, uma testemunha de tamanho reduzido.
A explicação que corre o mundo é boa demais para ser verdadeira. Diz que os romanos juravam segurando as próprias partes, e que o verbo testemunhar teria nascido do gesto. Nenhum texto romano descreve o costume, e a passagem bíblica da mão sob a coxa, usada como prova, não tem parentesco com o latim jurídico.
A hipótese mais aceita entre etimólogos passa pelo grego. Parastátes nomeava o soldado que ficava ao lado na formação, o que se posta junto, e no plural os médicos gregos usavam a mesma palavra para as glândulas. O latim copiou o trocadilho com a própria palavra de quem fica ao lado.
A leitura popular veio depois e ficou grudada. As duas testemunhas pequenas seriam a prova visível da virilidade, o par que confirma que um homem é um homem. Por qualquer um dos dois caminhos sobra o mesmo fato: a palavra da anatomia é o diminutivo da palavra do tribunal.
III
O que fica
A ideia de testemunha se soltou das pessoas e virou ferramenta de trabalho. Na construção, um testemunho é o bloco de gesso colado sobre a rachadura para provar se ela continua crescendo. Na sondagem de solo, o testemunho é o cilindro de terra retirado do fundo, a amostra que depõe sobre o subsolo.
O par latino continua em discussão dois mil anos depois. Testis é quem estava de fora e pode narrar com frieza. Superstes é quem estava dentro e carrega o acontecido no corpo. Qual dos dois tem mais autoridade sobre o que houve segue sendo pergunta aberta em qualquer tribunal e em qualquer livro de memória.
O português escolheu um lado sem perceber que escolhia. Testis tomou conta de todo o vocabulário da prova: testemunha, testemunho, testamento, atestado, protesto, contestar, detestar. Superstes encolheu até virar supérstite, palavra seca de inventário para o cônjuge que ficou.
Uma vizinha de som fica de fora da família, apesar da cara parecida. Testa, a parte da cabeça, vem de testa, o caco de barro, a telha que os romanos usavam como apelido para crânio. Testa e testemunha nunca se encontraram no latim, por mais que o ouvido insista em aproximá-las.
Sobra a lição embutida na raiz. A palavra não descreve enxergar, descreve estar. Antes de qualquer discussão sobre o que a testemunha viu, o latim já tinha decidido o essencial: onde ela estava quando o fato aconteceu, e de que lado da briga ficava.
Toda vez que alguém diz sou testemunha, a contagem antiga volta a funcionar sozinha. Duas versões em disputa, uma pessoa de pé na borda, e a aposta silenciosa de que o número três resolve o que dois sozinhos nunca resolveriam.
Toda palavra é um fóssil.
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