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Tchau é a despedida mais leve da língua e carrega a palavra mais pesada: escravo. S'ciavo, sou seu servo, diziam os venezianos com mesura. A gentileza sobreviveu; a servidão, por sorte, ficou pelo caminho.
Quando você diz tchau ao sair de casa, está repetindo um cumprimento feudal veneziano de setecentos anos.
A despedida mais casual do português brasileiro descende diretamente de uma fórmula de servidão: s'ciavo vostro, "sou seu escravo", que os venezianos da Idade Média usavam para saudar superiores e conhecidos com deferência máxima.
A palavra percorreu o Adriático, cruzou os Alpes, embarcou para o Brasil com os imigrantes italianos e perdeu todo o peso de submissão pelo caminho. Sobrou apenas o som.
I
A raiz
Para entender tchau, é preciso voltar ao latim tardio sclavus. A palavra latina para escravo, servus, existia, mas no final do Império Romano e na Alta Idade Média, tantos prisioneiros de guerra eslavos foram escravizados no Mediterrâneo que o etnônimo "eslavo" virou sinônimo de "escravo". Sclavus em latim tardio e medieval significava tanto "eslavo" quanto "escravo", os dois sentidos eram inseparáveis.
O veneziano, dialeto do norte da Itália com história própria de comércio e contato com o mundo eslavo do Adriático e do Mediterrâneo oriental, pronunciava sclavus como s'ciavo. A forma veneziana contraída s'ciao ou sciavo era usada nas cidades-Estado do norte italiano como fórmula de cumprimento e saudação: dizer a alguém s'ciavo vostro era declarar-se "seu servo", expressão de respeito e deferência social.
A fórmula completa era sono vostro s'ciavo, "sou seu escravo". Com o tempo, como acontece em todas as línguas, a fórmula se contraiu: ficou s'ciavo, depois sciavo, depois simplesmente ciao.
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"Ciao nasce como fórmula protocolar veneziana de humildade, 's'ciavo vostro', e pela erosão fonética e o uso frequente perde inteiramente seu peso semântico original, tornando-se uma das saudações mais leves e informais das línguas românicas." Manlio Cortelazzo e Paolo Zolli, Dizionario Etimologico della Lingua Italiana, 1979.
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II
A viagem
O percurso de s'ciavo para ciao é um processo de desgaste fonético e semântico. Primeiro a fórmula se comprimiu.
Depois o sentido literal de servidão evaporou, restando apenas o valor social do cumprimento. Ciao tornou-se, nos séculos XVIII e XIX, a saudação informal do norte da Itália, tanto de chegada quanto de partida.
Isso é raro nas línguas: a maioria dos cumprimentos tem direção definida (olá = chegada, adeus = partida). Ciao cobre os dois.
No século XIX e início do século XX, entre 1875 e 1930, mais de 1,5 milhão de italianos emigraram para o Brasil, a maioria deles do Vêneto e da Lombardia, regiões do norte onde ciao era a saudação padrão. Esses imigrantes se concentraram em São Paulo, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina. A influência fonética e vocabular foi imensa.
Ciao em boca italiana virou tchau em boca brasileira. O c palatizado veneziano-italiano se transformou no dígrafo tch do português, que representa o mesmo som. A adaptação foi fonética, não gráfica: o som entrou direto na fala, e a escrita foi atrás.
O português europeu diz adeus ou até logo. O espanhol diz adiós ou chao. O ciao italiano se espalhou também para o alemão informal, o francês coloquial, o holandês, o polonês. A globalização do ciao é fenômeno do século XX, mas o Brasil o abraçou antes dos outros, pelo contato direto com a imigração.
Curiosidade de cognatos: escravo em português vem do mesmo sclavus latino. Escravo e tchau são, etimologicamente, irmãos. A mesma raiz que designou uma condição de opressão histórica virou a palavra mais leve do vocabulário brasileiro.
III
O que fica
Há uma ironia profunda que a etimologia expõe aqui. A palavra que hoje usamos para indicar leveza, a despedida casual, afetiva, sem carga, nasceu de uma das instituições mais pesadas da história: a escravidão. O desgaste semântico foi tão completo que nenhum vestígio da servidão original sobreviveu no uso cotidiano.
Isso é mais do que curiosidade linguística. É um lembrete de que as palavras viajam independentemente de sua carga original. O que importa para a sobrevivência de uma palavra não é sua história, mas sua utilidade no momento presente. Tchau era útil porque era leve, curto, fácil. Entrou no português e ficou.
Toda vez que alguém diz tchau na saída de uma conversa, repete involuntariamente a curva: servidão feudal, cumprimento veneziano, saudação italiana, despedida brasileira. A língua esquece o passado. A etimologia não.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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