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Chamamos sádica a pessoa que encontra prazer na dor alheia, no sofrimento físico ou psicológico de outro ser. A palavra está no vocabulário do cotidiano, usada com leveza, às vezes com humor, para descrever desde o chefe que distribui tarefas impossíveis até o personagem de série que tortura inimigos.
Mas dentro dela vive um homem, Donatien Alphonse François, Marquês de Sade, que passou 27 dos seus 74 anos preso, cujos livros foram destruídos por ordem do Estado e queimados em praças públicas, e que morreu num asilo para alienados. A linguagem é mais memorável que a censura.
I
A raiz
Donatien Alphonse François de Sade (1740–1814) era nobre francês, militar de formação, escritor por compulsão. Passou décadas alternando entre liberdade e prisão, na Bastilha, em Vincennes, em Charenton, por comportamentos considerados escandalosos, obscenos e criminosos pelas autoridades do Ancien Régime e depois pela República.
Na prisão, escreveu de forma prolífica: Os 120 Dias de Sodoma (c. 1785), Justine (1791), A Filosofia na Alcova (1795), entre outros textos de natureza extrema, que combinavam filosofia materialista radical, libertinagem e encenação sistemática da crueldade.
Sade era ao mesmo tempo produto e crítico do iluminismo. Levava a racionalidade materialista às últimas consequências: se Deus não existe e a natureza é a única lei, então a crueldade é natural e portanto legítima. Era um argumento filosófico, provocador, deliberadamente insuportável, encarnado em narrativas pornográficas. Seus textos foram censurados, destruídos e reescritos clandestinamente ao longo de dois séculos.
O nome sádico não veio de Sade. Veio de um psiquiatra austríaco que o usou como categoria clínica quase um século depois da morte do marquês.
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"Ao colocar prazer na prática de crueldades sobre os outros, batizei essa anomalia de sadismo, em homenagem ao Marquês de Sade, que descreveu esse vício da forma mais completa." Richard von Krafft-Ebing, Psychopathia Sexualis, 1886.
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II
A viagem
Richard von Krafft-Ebing (1840–1902) foi o psiquiatra alemão-austríaco que fundou a psicopatologia sexual como disciplina clínica sistemática. Sua obra Psychopathia Sexualis, publicada em 1886 e expandida em múltiplas edições, catalogou comportamentos sexuais considerados desviantes com nomenclatura científica. Krafft-Ebing criou os termos sadismo e masoquismo (este derivado do escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch, autor de A Vênus das Peles), introduzindo-os como pares complementares na psicologia clínica.
O sadisme em francês já circulava desde o início do século XIX como adjetivo informal para descrever crueldade intensa, mas Krafft-Ebing o formalizou como categoria nosológica. O par sadismo/masoquismo foi incorporado por Freud, que desenvolveu a teoria do sadomasoquismo como fenômeno psíquico com raízes nas pulsões, e pela psicanálise posterior.
O francês sadique e o inglês sadistic seguiram Krafft-Ebing diretamente. O português sádico e o substantivo sadismo chegaram via tradução dos textos psiquiátricos europeus no final do século XIX e início do XX. O Houaiss documenta o uso em português desde o início do século XX.
A trajetória do marquês após a morte foi de progressiva reabilitação intelectual. No século XX, escritores surrealistas, Guillaume Apollinaire, André Breton, reivindicaram Sade como precursor, vendo na sua obra uma ruptura com a hipocrisia moral burguesa.
Simone de Beauvoir escreveu Deve-se queimar Sade? (1951), analisando sua obra como filosofia da crueldade que merecia leitura séria. Michel Foucault o situou no contexto da constituição do discurso sobre sexualidade no Ocidente.
A obra de Sade passou de material proibido a objeto de estudo acadêmico. Os 120 Dias de Sodoma, manuscrito que o próprio Sade acreditava perdido quando foi transferido da Bastilha dias antes da Revolução Francesa (o manuscrito sobreviveu, enrolado num cachimbo), foi publicado integralmente em 1904.
Hoje integra acervos literários e históricos de primeiro nível: o manuscrito original foi adquirido pela Bibliothèque Nationale de France em 2021 por 4,55 milhões de euros.
O adjetivo sádico, entretanto, manteve-se dissociado dessa reabilitação intelectual. Na linguagem corrente, sádico descreve crueldade cotidiana, o prazer em causar sofrimento, sem conotação necessariamente sexual. Diz-se que alguém é sádico ao maltratar animais, ao humilhar subordinados, ao desfrutar do desconforto alheio. A palavra popularizou o conceito clínico e o generalizou.
III
O que fica
Sade foi censurado, preso e diagnosticado como louco. O Estado que o perseguiu não existe mais. A Bastilha onde esteve preso foi destruída. Os exemplares de seus livros queimados em praças não voltam.
Mas o adjetivo que nomeia o prazer na crueldade tem o sobrenome dele, e esse adjetivo é usado todos os dias, em todas as línguas europeias, por pessoas que nunca leram uma linha que ele escreveu.
Há uma forma perversa de justiça nessa imortalidade. Sade foi perseguido por nomear o que a sociedade preferia não nomear. A língua, mais honesta que as instituições, preservou o nome para o conceito que ele forçou o mundo a reconhecer: que o prazer e a crueldade podem coexistir no mesmo ser humano, e que nomear esse fato é o primeiro passo para lidar com ele.
Que a língua tenha sido mais duradoura que a Bastilha é, talvez, exatamente o tipo de ironia que o marquês teria apreciado.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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