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Dom Quixote perdeu todas as batalhas que inventou e ganhou a maior delas: entrou no dicionário de todas as línguas europeias. Quixotesco é o adjetivo do fracasso glorioso. Cervantes acharia justo.
Em algum momento entre 1605 e hoje, um cavaleiro fictício de La Mancha entrou no vocabulário de todas as línguas europeias. O que Dom Quixote faz no romance de Cervantes, confundir moinhos com gigantes, carroças com exércitos, meretrizes com damas, virou adjetivo: quixotesco. E o adjetivo não é insulto.
É ambiguidade complexa: descreve ao mesmo tempo a loucura de quem luta contra o impossível e a grandeza de quem acredita em algo maior do que o mundo permite.
I
A raiz
Miguel de Cervantes publicou a primeira parte de El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha em 1605, em Madri. A segunda parte saiu em 1615, meses antes da morte do autor.
O livro é amplamente considerado o primeiro romance moderno ocidental, uma obra que parodia os romances de cavalaria medievais ao colocar um hidalgo pobre e enlouquecido por leituras excessivas em aventuras que ele imagina épicas mas que a realidade revela como ridículas.
O nome do personagem não é acidental. Quijote em espanhol é a peça da armadura que protege a coxa. Cervantes escolheu um nome que é, ao mesmo tempo, parte de armadura velha e ponto de riso: dar o nome de uma peça de equipamento obsoleto ao cavaleiro que usa equipamento obsoleto era piada interna para o leitor do século XVII.
A loucura específica de Dom Quixote é a incapacidade de distinguir a ficção dos romances de cavalaria da realidade que o cerca. Ele não é simplório nem burro: é um homem culto que leu demais e perdeu a calibração entre narrativa e mundo.
O episódio dos moinhos de vento, capítulo 8 da primeira parte, é o mais famoso: Dom Quixote vê trinta moinhos e os identifica como gigantes monstruosos. Sancho Pança diz que são moinhos. Dom Quixote ataca. O moinho o derruba.
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"En esto descubrieron treinta o cuarenta molinos de viento que hay en aquel campo, y así como don Quijote los vio, dijo a su escudero: 'La ventura va guiando nuestras cosas mejor de lo que acertáramos a desear; porque ves allí, amigo Sancho Panza, donde se descubren treinta o pocos más desaforados gigantes, con quien pienso hacer batalla'." Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha, Parte I, Capítulo VIII, 1605.
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II
A viagem
Don Quijote foi sucesso imediato. A primeira parte foi reimpressas seis vezes no ano de lançamento e rapidamente traduzida para inglês (1612) e francês (1614). O livro viajou por toda a Europa com velocidade incomum para a época.
O personagem tornou-se tipo cultural imediatamente reconhecível. Já no século XVII, europeus cultos usavam "quixote" ou "quichotte" para descrever uma pessoa que age como o personagem: sonhadora, idealista, desconectada da realidade, que enfrenta impossibilidades com tenacidade admirável e ineficaz.
O adjetivo quixotic apareceu no inglês no século XVIII, o Oxford English Dictionary registra usos desde a década de 1710. Em francês, quichottesque e depois quichottique. Em português, as formas quixotesco e quixotesco circulavam já no século XIX.
O adjetivo tem uma ambiguidade que a crítica literária explorou muito. Ser "quixotesco" é simultaneamente ridículo e nobre. Dom Quixote é, ao mesmo tempo, o lunático que ataca moinhos e o único cavaleiro que defende os fracos sem pedir recompensa. Sua loucura tem dignidade. O adjetivo carrega os dois polos: quando chamamos alguém de quixotesco, podemos estar ridicularizando ou homenageando.
O filósofo espanhol Miguel de Unamuno, em Del sentimiento trágico de la vida (1913), fez de Dom Quixote símbolo da condição espanhola e, por extensão, da condição humana: a tensão entre o que sonhamos e o que o mundo permite. Para Unamuno, ser quixotesco era a única atitude honesta diante de um mundo absurdo.
O adjetivo chegou ao português brasileiro com os dois tons. "Projeto quixotesco" pode ser crítica (inviável, desconectado) ou elogio (ambicioso, corajoso além da razão). O contexto decide.
III
O que fica
Poucos personagens literários tiveram a honra de se tornarem adjetivos universais. Dom Quixote é um deles. O livro de Cervantes criou não apenas uma história, mas um conceito: o tipo humano que insiste em lutar por uma visão de mundo que os outros não compartilham.
A ironia é que Cervantes pretendia parodiar. Escreveu Dom Quixote para ridicularizar os romances de cavalaria medievais, que considerava danosos ao leitor ingênuo. Mas criou, ao parodiar, algo maior do que a paródia: um arquétipo. O ridículo que se torna grandioso. O louco que tem razão num sentido mais profundo.
Quixotesco ficou porque nomeia algo real na experiência humana, o impulso de agir segundo uma visão que o mundo imediato não confirma. É a palavra para o empreendedor que insiste onde todos desistiram, para o artista que persiste sem audiência, para o reformador que vê o gigante onde os outros veem o moinho.
A linguagem guarda os tipos que a humanidade reconhece em si mesma.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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