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Em 2020, o mundo inteiro aprendeu na prática o que Veneza inventou em 1377. A diferença é que os venezianos fizeram isso com barcos de madeira e guardas armados. E o nome que deram ao procedimento já tinha seis séculos quando chegou ao seu vocabulário pandêmico.
I
A raiz
Quarantina vem do italiano quaranta (quarenta), que vem do latim quadraginta. O sufixo -ina indica período ou quantidade aproximada. Quarantina era "um período de quarenta dias". Ponto.
O número 40 não era médico. Era bíblico. Quarenta dias de dilúvio. Quarenta anos no deserto. Quarenta dias de tentação de Cristo. Quarenta dias de Quaresma. Na mentalidade medieval, 40 era o número da purificação, da provação, da transformação. A medicina adotou um número que a teologia já tinha consagrado.
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"Nenhum homem ou mulher entrará em Ragusa vindo de área pestilenta, a não ser que antes permaneça no lugar designado por quarenta dias." Decreto de Ragusa, 1377.
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II
A viagem
A Peste Negra chegou à Europa em 1347, matando entre um terço e metade da população do continente. As cidades-estado italianas, cujo comércio marítimo as expunha ao contágio, foram as primeiras a desenvolver medidas de contenção.
Em 1377, a cidade de Ragusa (atual Dubrovnik, na Croácia, então sob influência veneziana) promulgou o primeiro decreto oficial de quarentena. Navios e viajantes vindos de áreas infectadas eram obrigados a esperar 30 dias (trentina) num local isolado antes de entrar na cidade. Logo depois, o período foi estendido para 40 dias: quarantina.
Veneza adotou e aperfeiçoou o sistema. Criou o lazzaretto, uma ilha de isolamento na laguna onde navios e tripulações ficavam confinados. O Lazzaretto Vecchio (fundado em 1403) e o Lazzaretto Nuovo (1468) são os primeiros hospitais de quarentena da história. O nome vem de Nazaretum ou de São Lázaro, patrono dos doentes.
O sistema veneziano era sofisticado. Funcionários sanitários inspecionavam navios. Cargas suspeitas eram desinfetadas com vinagre e fumaça. Tripulantes doentes eram separados dos saudáveis. Navios que tentavam furar a quarentena eram afundados. Era vigilância sanitária com pena de morte.
O modelo se espalhou pelo Mediterrâneo. Marselha, Gênova, Nápoles, Barcelona criaram seus próprios lazzaretti. A quarentena virou protocolo padrão do comércio marítimo europeu por quatro séculos.
A palavra viajou com o protocolo. O francês adotou quarantaine. O inglês, quarantine. O espanhol, cuarentena. O português, quarentena. Em todos os casos, o número 40 permaneceu no nome, mesmo que os períodos de isolamento variassem na prática.
Na era moderna, quarentenas passaram a ser baseadas no período de incubação de cada doença, não num número bíblico. A quarentena do ebola é de 21 dias. A da covid-19 foi de 14, depois 10, depois 5. Nenhuma é de 40. Mas a palavra ficou.
III
O que fica
Quarentena é uma palavra que carrega dentro de si duas histórias sobrepostas: a da medicina prática (Veneza isolando navios infectados) e a da simbologia religiosa (o número 40 como purificação). As duas se fundiram no século XIV e nunca mais se separaram.
Em 2020, bilhões de pessoas aprenderam a palavra em suas próprias línguas, muitas vezes sem saber que estavam usando um termo veneziano do século XIV baseado num número bíblico.
A medicina avança. Os números mudam. Mas o nome que Veneza deu à precaução continua sendo o mesmo que o mundo usa quando precisa se proteger.
Toda palavra é um fóssil.
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