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O tupi ouviu o milho estourar e escreveu o barulho: pipoca. Nenhum comitê, nenhum empréstimo erudito, só o ouvido mais afiado da história da língua. Difícil ser mais honesto que isso.
Pipoca é uma das raras palavras em que a língua capturou um som físico com precisão quase perfeita.
Os povos tupis do litoral e do interior do Brasil chamavam o milho estourado de pipoca, e a palavra imita o estalo do grão quando a pressão interna do vapor rompe a casca: pi-po-ca. Quinhentos anos de uso não desgastaram o som nem o sentido.
A palavra chegou até hoje intacta, onomatopaica, precisa. Uma herança tupi no coração do cotidiano brasileiro.
I
A raiz
O tupi era a língua franca do litoral brasileiro no momento do contato com os portugueses. Falada em variantes por grupos que iam do Maranhão ao Rio da Prata, era a língua que os jesuítas sistematizaram no século XVI como língua geral, veículo de catequese e comércio por séculos.
Em tupi, a raiz pipo ou pipó carrega a ideia de estouro, de ruptura com barulho, de coisa que rebenta. O sufixo -ca ou -oca é produtivo no tupi e forma substantivos que designam o resultado de uma ação. Pipoca seria, portanto, "o que explode", "o resultado do estouro".
Alguns linguistas registram também a forma pipoca como diretamente onomatopaica, a sequência de sons imita o barulho que o grão faz ao estourar.
O milho já era cultivado e consumido pelas populações nativas do Brasil há milênios antes da chegada dos europeus. Estourar milho sobre brasas era técnica conhecida: o grão de milho, quando submetido a alta temperatura, tem a umidade interna transformada em vapor, que rompe o pericarpo com força. Os tupis conheciam e nomeavam o processo.
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"O vocabulário tupi legado ao português brasileiro é um dos maiores de qualquer língua indígena absorvida por uma língua colonial, cobrindo fauna, flora, topografia, alimentos e práticas cotidianas que não existiam no mundo europeu." Eduardo de Almeida Navarro, Método Moderno de Tupi Antigo, 2005.
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II
A viagem
Os portugueses chegaram ao Brasil em 1500 e rapidamente aprenderam a língua tupi, ou melhor, aprenderam a língua geral, a versão padronizada que os jesuítas desenvolveram a partir do tupi do litoral. Durante os séculos XVI, XVII e parte do XVIII, a língua geral foi tão importante no Brasil quanto o português, talvez mais em certas regiões.
Nesse processo de bilinguismo colonial, centenas de palavras tupis entraram no vocabulário português para designar coisas que simplesmente não existiam no mundo ibérico: jacaré, capivara, tatu, mandioca, abacaxi, caju, maracujá, piranha, e pipoca. Para cada uma dessas coisas, o português precisou tomar emprestada a palavra tupi porque não havia equivalente europeu.
Pipoca entrou no português brasileiro como palavra para a coisa específica: o milho estourado. Em Portugal, onde o produto não fazia parte da culinária tradicional, a palavra demorou mais a se fixar. No Brasil, tornou-se absolutamente corriqueira.
A palavra não viajou muito para fora do português. Em espanhol a América Latina usou palomitas (Espanha, México), popcorn (empréstimo do inglês), pochoclo (Argentina), crispetas (Colômbia). O inglês tem popcorn, combinação descritiva dos séculos XIX e XX. O francês tem popcorn (emprestado do inglês) ou maïs soufflé.
Em nenhuma língua europeia principal o milho estourado tem um nome tão expressivo, tão sonoro, tão preciso quanto pipoca. O tupi acertou em cheio: deu à coisa um nome que imita o que ela faz.
No século XX, com o cinema, a pipoca industrializou-se e globalizou-se. Curiosamente, no Brasil, o produto globalizou-se com o nome original tupi: pipoca de micro-ondas, pipoca de cinema, pipoca adoçada, pipoca salgada, tudo pipoca. O anglicismo popcorn nunca deslocou a palavra nativa.
III
O que fica
Pipoca é um dos exemplos mais bonitos de persistência vocabular tupi no português brasileiro. Numa língua em que tantas palavras indígenas foram substituídas por equivalentes europeus ou deixadas cair, pipoca sobreviveu com força. Sobreviveu porque era necessária, porque nomeava algo sem equivalente, e porque era boa: o som imitava o referente.
Há algo de democrático na trajetória da palavra. Ela não veio de uma corte, de um texto literário, de uma invenção científica ou de uma conquista militar. Veio da beira de uma fogueira, de alguém que observou grãos de milho estourar e deu ao estouro um nome que soava como o próprio estouro.
Toda vez que um pacote abre no micro-ondas e aquele barulho específico começa, a língua está fazendo o que o tupi fez quinhentos anos atrás: imitando, com sons humanos, o som das coisas.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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