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A LINHA DO TEMPO pérsia → índia mogol → império britânico → cinema → quartos brasileiros |
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Você dorme com uma palavra persa no corpo. A peça de roupa mais íntima do seu dia, a que veste o momento em que você está mais desprotegido, tem origem no Irã do século XV, passou três séculos na Índia, virou souvenir colonial britânico e chegou no Brasil pelo cinema. Pijama é uma palavra que viajou meio mundo antes de chegar na sua cama. I A raizPāy-jāma é a forma persa que o hindi adotou e popularizou. Decompondo: pāy significa pé, perna. Jāma significa roupa, vestimenta. Roupa para as pernas. Calça larga e leve, presa na cintura por um cordão, costume tradicional persa que se espalhou pelo mundo islâmico desde o período safávida. A peça original não tinha nada a ver com dormir. Era roupa de dia, usada por homens e mulheres em casa, no trabalho, em ocasiões formais. Algodão fino no verão, lã no inverno. Confortável, prática, adequada ao clima quente do Oriente Médio e do subcontinente indiano. Quando os mogóis muçulmanos invadiram o norte da Índia no século XVI, levaram o pāy-jāma junto com a língua persa, a cozinha persa e a estética persa. Em duzentos anos, a peça já era parte do guarda-roupa indiano comum, especialmente entre as classes urbanas e a elite muçulmana.
II A viagemA história europeia da palavra começa com a Companhia Britânica das Índias Orientais. Funcionários ingleses estacionados na Índia desde o século XVII viam a aristocracia local usando pāy-jāma o dia inteiro. Achavam confortável demais para ignorar. Adotaram primeiro como roupa de uso doméstico nas próprias residências indianas: roupa de descanso, roupa de calor, roupa de privado. Quando voltavam pra Inglaterra, levavam o hábito junto. No frio britânico, a peça larga e leve não fazia muito sentido como roupa de rua, mas era perfeita pra usar dentro de casa, antes de dormir, depois do banho. Aos poucos, o pyjama virou exclusivamente roupa de dormir na cultura ocidental, perdendo o uso diurno original. A palavra entrou no inglês britânico em 1800. No fim do século XIX, pyjamas (sempre no plural, como trousers) já era termo corriqueiro nas casas vitorianas, substituindo a tradicional nightshirt (camisola masculina) em alguns círculos. Os americanos preferiram pajamas, com grafia simplificada, mas o significado virou o mesmo. A entrada na França foi via Inglaterra, no fim do século XIX. Pyjama, no singular, vestindo o conceito europeu de peça noturna. Do francês entrou no português, e por isso usamos pijama (não paijama ou paijuma). A acentuação na sílaba ja segue o francês, não o hindi original. A palavra perdeu a memória da pronúncia indiana ao virar moda europeia. No Brasil, o pijama era artigo de luxo até os anos 1930. Aparecia em propagandas de magazines, vendido como sinal de modernidade e refinamento. O cinema americano dos anos 1940 e 50 popularizou definitivamente: heróis e heroínas de Hollywood dormiam de pijama. O brasileiro de classe média copiou. Antes disso, o povo dormia de camisola, de cueca, ou nu mesmo, dependendo do clima e da região. A virada cultural mais interessante aconteceu nos anos 1960. O pijama deixou de ser exclusivamente noturno e começou a ganhar terreno como roupa de uso confortável fora do horário de dormir. A pandemia de 2020 acelerou esse processo de forma vertiginosa: pessoas trabalhando de pijama em videoconferências, comprando pijamas no e-commerce como se fossem roupas de trabalho. Sem perceber, a humanidade ocidental voltou ao uso original persa. A peça que tinha sido confiscada pela noite voltou ao dia. III O que ficaO pijama é um dos poucos itens de roupa cujo nome carrega o trajeto exato do colonialismo. Pérsia para Índia. Índia para Inglaterra. Inglaterra para o mundo. Cada viagem deixou marca na palavra, mas nenhuma apagou a anterior. Pé e roupa ainda estão lá, em persa, debaixo de cinco séculos de história. Há algo poético nisso. A roupa mais íntima da casa, a que cobre o corpo no momento mais vulnerável do dia, é a que viajou mais longe pra chegar ali. O quarto brasileiro, à noite, recebe um eco do Irã safávida e da Índia mogol toda vez que alguém abotoa o último botão antes de dormir. A globalização não começou no Vale do Silício. Começou na varanda de uma casa em Delhi, no século XVII, com um inglês perguntando ao anfitrião onde tinha comprado aquela calça tão confortável. Toda palavra é um fóssil. |
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O RITUAL DIÁRIO Todo dia, às 12:12. Uma palavra. Dois minutos. A Origem das Palavras. Uma palavra. Uma história. |