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A Origem das Palavras #055 · Pária
A Origem das Palavras

EDIÇÃO Nº 055

A PALAVRA DE HOJE

Pária

/ˈpa.ɾi.a/

Do tâmil. paraiyar (tocadores do tambor parai)

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A Origem das Palavras

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A LINHA DO TEMPO

tâmil *parai* (tambor) → *paraiyar* (casta de tocadores) → português *pária* (séc. XVII) → uso universal para excluído

Etimologia de Pária

Pária é hoje sinônimo universal de excluído, o rejeitado, o marginalizado, aquele que a sociedade empurra para fora de si mesma. A palavra circula em editoriais políticos, em diagnósticos sociológicos, em discussões sobre discriminação. Mas quando nasceu, não designava exclusão: designava uma função.

Os paraiyar eram os músicos que tocavam o grande tambor de couro nos funerais e festivais da Índia do sul. Foram os colonizadores europeus que chegaram, ouviram o tambor e transformaram o nome do músico no nome do proscrito.

I

A raiz

Parai é um tambor de membrana grande, feito de couro de gado, tocado com baquetas, central nos rituais funerários e em certas festividades agrícolas do Tamil Nadu, no sul da Índia. O nome do instrumento é tâmil, língua dravídica com literatura documentada há mais de dois mil anos, uma das mais antigas tradições literárias do mundo.

Paraiyar, plural de paraiyan, eram os membros da comunidade encarregada de tocar esse tambor. No sistema de castas do sul da Índia, a fabricação e o toque do tambor envolviam o contato com couro de animal morto, considerado poluente nas regras de pureza ritual hinduísta.

Os paraiyar estavam entre os grupos classificados como Dalits, aqueles posicionados fora ou abaixo do sistema de quatro varnas. O trabalho ritual com materiais considerados impuros os situava em posição de exclusão social estrutural na hierarquia local.

É importante não projetar o sentido europeu de pária retroativamente sobre os paraiyar. Dentro da sociedade tâmil, a função dos tocadores de tambor era ritualmente necessária e reconhecida, sem o parai não havia funeral, sem o funeral não havia transição adequada dos mortos. A exclusão não era ausência de função, mas restrição de circulação social e casamento intergrupal.

"Os Parias são a mais numerosa casta do país e a mais desprezada; fazem os trabalhos mais baixos e habitam nos arredores das vilas. Tocam os seus grandes tambores nas festas e nos enterros." Abbé Jean-Antoine Dubois, Hindu Manners, Customs and Ceremonies, 1806.

II

A viagem

Os portugueses chegaram à costa do Coromandel e ao Tamil Nadu no início do século XVI e foram os primeiros europeus a registrar a palavra. Os textos portugueses do século XVII já usam pária para designar grupos de baixa casta no sul da Índia.

A palavra passou ao inglês colonial, pariah, com os britânicos que estabeleceram Madras (hoje Chennai) como entreposto em 1639. Os holandeses usaram paria. O francês adotou paria via relatos missionários.

O salto semântico crucial aconteceu na literatura europeia do século XVIII. Viajantes, missionários e administradores coloniais escreveram sobre os pariah com um olhar que misturava curiosidade etnográfica e horror moral. A palavra passou a ser usada fora do contexto indiano para qualquer grupo radicalmente excluído.

Robert Southey, Poet Laureate inglês, usou pariah em sentido figurado no início do século XIX. O Dicionário da Academia Francesa registrou paria em 1835 com o sentido de "pessoa excluída da sociedade".

Thomas Macaulay, em seus influentes relatórios sobre educação na Índia (1835), usou a condição dos pariah como metáfora da exclusão que o sistema educacional deveria superar. A palavra saiu da descrição etnográfica e entrou no vocabulário político liberal europeu.

O português consolidou pária com acento agudo. O Houaiss registra o uso em sentido figurado desde o século XIX. Em espanhol, paria; em francês, paria; em inglês, pariah; em alemão, Paria, em todas as línguas a palavra saiu do Tamil Nadu e atravessou o mundo sem parar.

As comunidades Dalit do Tamil Nadu, incluindo grupos historicamente identificados como paraiyar, vivem hoje uma realidade complexa entre discriminação persistente e afirmação de identidade cultural. O movimento de direitos Dalit do século XX e XXI reivindica dignidade e representação política.

A própria palavra paria é, no contexto indiano contemporâneo, frequentemente rejeitada pelos próprios descendentes dessas comunidades como imposição de uma visão colonial que distorceu a função social original.

Na linguagem internacional, enquanto isso, pária continua sendo usada livremente para estados-nação isolados ("país-pária da comunidade internacional"), para indivíduos expulsos de grupos, para qualquer forma de exclusão social sistemática.

III

O que fica

A história da palavra pária é uma história de mal-entendido que virou definição. Os colonizadores europeus chegaram à Índia com categorias prontas de hierarquia e exclusão, ouviram um nome e encaixaram o que viram num molde que já tinham.

O tambor virou estigma, o músico virou símbolo da condição mais baixa, e essa leitura colonial se espalhou pelo mundo como se fosse a única leitura possível.

A etimologia desfaz a naturalização. Pária não nasce da exclusão: nasce de um instrumento musical. Alguém tocava um tambor e esse era o nome de quem tocava. O que veio depois, a hierarquia de casta, o olhar colonial, a generalização filosófica, foram acréscimos que a palavra absorveu e carregou, mas que não estavam na origem.

Há palavras que registram apenas fatos. Há palavras que registram como os poderosos veem os outros. Pária é das segundas, e isso a etimologia permite ver com clareza cirúrgica: o músico e o excluído não são a mesma coisa. A língua os fundiu, e a língua pode, se quisermos, separá-los de novo.

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Toda palavra é um fóssil.

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