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Poucos personagens comem tanto que viram adjetivo. O gigante de Rabelais conseguiu: todo banquete exagerado hoje atende pelo nome dele. A glutonaria como obra literária merece esse respeito.
Em 1532, um médico e monge francês chamado François Rabelais publicou um livro grotesco e glorioso sobre um gigante de apetite ilimitado. O gigante chamava-se Pantagruel. Ele bebia barris inteiros de vinho, devorava bois assados inteiros, e sua garganta era larga o suficiente para engolir um exército.
Quatrocentos anos depois, o nome do gigante ainda vive como adjetivo em todas as línguas europeias: pantagruélico descreve qualquer banquete, apetite ou empresa de proporções simplesmente impossíveis para um ser humano comum.
I
A raiz
François Rabelais era médico formado em Montpellier, monge beneditino e franciscano, humanista que lia grego e hebraico, homem de ciência e de letras. Quando escreveu Pantagruel (1532) e Gargântua (1534), estava produzindo sátira intelectual disfarçada de literatura popular, os gigantes eram veículos para criticar a Igreja, a educação escolástica medieval, a hipocrisia clerical e os costumes da corte francesa.
O nome Pantagruel foi construído por Rabelais com erudição cuidadosa.
O prefixo panta- vem do grego e significa "tudo", "completamente": está em panteão (todos os deuses), pânico (terror de Pã, que afeta todos), panorama (visão de tudo). Gruel é provavelmente derivado do árabe ghoul, o demônio sedento, a criatura que devora, mediado pelo linguajar popular medieval e pelas histórias que circulavam sobre criaturas malignas de apetite insaciável.
Pantagruel seria, portanto, "o que é completamente sedento", "o totalmente devorador", "aquele cujo apetite abraça tudo". Rabelais confirma esta leitura no próprio texto, quando explica que o personagem nasceu numa época de grande seca e sede universal, o nome é literalmente motivado pelo contexto de origem do gigante.
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"Iceluy fut de son enfance tousjours grand buveur et grand mangeur par nature, dont en sa nativité on luy donna nom Pantagruel." François Rabelais, Les horribles et espouvantables faicts et prouesses du très renommé Pantagruel, 1532.
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II
A viagem
Os livros de Rabelais foram escandalizosos e populares ao mesmo tempo. A Igreja Católica os condenou; o povo os devorou. O estilo rabelaisiano era a antítese do decoro cortesão: erotismo explícito, scatologia, violência burlesca, bebedeiras épicas, discursos de erudição absurda. Era o carnaval medieval posto em prosa literária.
O personagem Pantagruel tornou-se referência cultural imediata para o excesso alegre. Rire pantagruélique em francês, o riso pantagruélico, era já no século XVI sinônimo de gargalhada descomunal, irreprimível. Repas pantagruélique era o banquete impossível.
O adjetivo pantagruélique está documentado no francês desde o século XVI, derivado diretamente do personagem. O português tomou o adjetivo via francês, adaptando para pantagruélico com as modificações fonológicas típicas. O espanhol fez o mesmo com pantagruélico.
A palavra chegou ao século XIX como adjetivo literário e chegou ao século XX como adjetivo de uso comum. Um jantar pantagruélico não exige conhecimento de Rabelais para ser compreendido: o som e o tamanho da palavra já comunicam excesso.
É um dos casos em que a própria forma sonora da palavra contribui para o sentido, o grupo consonantal ntg, as quatro sílabas, o final pesado em -ico soam grandes, volumosos, impossíveis de mastigar rapidamente.
A família literária de Pantagruel é ilustre. O pai, Gargântua, que Rabelais escreveu como "prequel" em 1534, deu ao inglês gargantuan (gigantesco, descomunal) e ao português o adjetivo gargantuesco ou gargantuano. Os dois irmãos literários percorreram caminhos paralelos como adjetivos de excesso.
É notável que tanto Gargântua quanto Pantagruel tenham entrado nos dicionários como adjetivos de excesso físico (comida, tamanho, quantidade) e não de excesso moral (crueldade, ganância). O excesso rabelaisiano é festivo, carnavalesco, sem malícia. Os adjetivos preservaram esse tom: pantagruélico não é pejorativo. É quase uma celebração.
III
O que fica
Rabelais criou, em seus gigantes, uma defesa literária do excesso vitalista contra a moderação puritana. Num século em que a Reforma Protestante pregava austeridade e a Contrarreforma católica afirmava mortificação, Rabelais escreveu sobre gigantes que bebiam rios e riam de tudo. O humanismo rabelaisiano era corpo, apetite, alegria, inteligência sem medo.
A palavra pantagruélico carregou essa herança. Não é a palavra para o vício da gula: é a palavra para a abundância celebratória, para o banquete que afirma a vida, para o apetite como forma de generosidade. Quando alguém anuncia um "almoço pantagruélico", está anunciando festa, não pecado.
Há algo de profundamente humano na persistência desse adjetivo. As línguas conservam as palavras que nomeiam experiências que valem a pena ter, e um banquete impossível, uma risada descomunal, uma alegria sem medida são experiências que toda civilização reconhece como boas.
Rabelais sabia. E a língua concordou.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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