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Oxalá o tempo firme no sábado. A frase sai da boca de qualquer brasileiro sem esforço nenhum, com cara de português antigo, meio literário, um sinônimo mais elegante de tomara. Parece palavra nossa de sempre.
Não é. Oxalá nem sequer é uma palavra, é uma oração inteira comprimida em quatro sílabas. E dentro dela, escondido na última, está o nome de Alá. Quem diz oxalá está invocando o deus do islã na mesa do bar, sem desconfiar de nada.
I
A raiz
A fórmula original tem três palavras em árabe: in (se), šāʾa (quis, do verbo querer) e Allāh (Deus). Juntas, in šāʾ Allāh, se Deus quiser. É a frase que o muçulmano prende no fim de qualquer afirmação sobre o futuro, do encontro de amanhã à colheita do ano que vem.
Allāh também não é bem um nome próprio. É contração de al-ilāh, o deus, com o artigo definido al colado no substantivo. Vem da mesma raiz semítica de El e Eloah, os nomes divinos do hebraico bíblico. Traduzido ao pé da letra, Alá quer dizer o Deus, com artigo e tudo.
E al é velho conhecido do português. Ele atravessou a fronteira grudado em dezenas de palavras: álcool, álgebra, algoritmo, alfândega, alfaiate, almofada, alface, alecrim. O falante nunca separou o artigo do resto, e a gente acabou dizendo "o álcool" com dois artigos empilhados, um português e um árabe.
A fórmula chegou pelo mesmo caminho de todas as outras. Durante quase oito séculos, o árabe foi língua de governo, de tribunal, de comércio e de vizinhança em boa parte da Península Ibérica. Quem vivia ali ouvia in šāʾ Allāh dezenas de vezes por dia, fechando frase de mercador, de lavrador e de escriba.
A boca fez o resto. O bloco se comprimiu, o começo se apagou, e o š árabe, o nosso som de x, ficou de pé no meio da palavra. Sobrou oxalá em português e ojalá em espanhol, com a jota moderna do castelhano ocupando o lugar do mesmo chiado antigo.
Os dicionários ainda discutem qual variante entrou. Uns apostam em in šāʾ Allāh, se Deus quiser. Outros em law šāʾ Allāh, se Deus quisesse, a forma de desejo que combina melhor com o subjuntivo que a palavra exige em português. As duas dizem a mesma coisa, e as duas terminam no mesmo nome.
Repare no que não aconteceu. Oxalá não entrou pela teologia, não veio numa tradução do Alcorão nem numa disputa entre religiosos. Entrou pela fala corriqueira, e chegou tão desmontada que ninguém mais conseguia enxergar as peças.
É provavelmente essa opacidade que salvou a palavra. Nenhum inquisidor foi capaz de ouvir uma prece muçulmana dentro de quatro sílabas que soavam tão portuguesas quanto qualquer outra.
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Oxalá é a única prece que o brasileiro reza sem saber que está rezando, e é justamente por não saber que ele a repete com tanta liberdade, num país onde quase ninguém segue o deus que a palavra chama pelo nome.
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II
A viagem
A fórmula acompanhou o islã por três continentes e ficou de pé em quase toda parte. O turco diz inşallah, o persa e o urdu repetem a frase quase intacta, o malaio escreve insya-Allah, o suaíli da costa africana adotou inshallah sem mexer numa letra.
Em todas essas línguas a frase continua sendo uma frase. Dá para ver as juntas, dá para apontar o nome de Deus no fim, e quem fala sabe exatamente o que está dizendo. A oração viajou milhares de quilômetros e não perdeu a forma.
A Península Ibérica foi a exceção. Só aqui a frase virou palavra única, fundiu as juntas e apagou a fronteira que separava Deus do resto. Oxalá e ojalá são os dois casos em que a prece se dissolveu tanto que passou a soar como vocabulário nativo, herdado de dentro e não de fora.
A tradução literal também existe, e existe em todo lugar. O português tem "se Deus quiser", o espanhol tem "si Dios quiere", o inglês "God willing", o alemão "so Gott will", e as cartas antigas em latim abreviavam Deo volente como um simples D.V.
Todas transparentes, todas nomeando Deus na língua de quem escreve, e todas fáceis de evitar quando o falante prefere não invocar ninguém.
A diferença entre as duas formas é de temperatura. Quem diz "se Deus quiser" assume alguma coisa, a frase ainda soa a compromisso de fé. Oxalá não cobra nada: ateu diz oxalá, agnóstico diz oxalá, quem nunca pisou numa igreja diz oxalá. A palavra virou desejo puro, sem conta a prestar.
O português ainda tem um terceiro caminho, e ele é outro fóssil. Tomara era forma verbal, o mais-que-perfeito de tomar, o "eu tomara" que valia por eu teria tomado. A conjugação caiu em desuso e o resto virou interjeição de desejo.
Sobraram dois sinônimos de desejo e nenhum dos dois é o que aparenta: um é gramática latina emperrada, o outro é oração árabe inteira.
E existe um segundo Oxalá no Brasil, sem nenhum parentesco com o primeiro. Oxalá é também o orixá do branco no candomblé, o Òrìṣànlá ou Obatalá do iorubá, pai dos orixás e senhor da criação. O nome veio da África ocidental pelo Atlântico, não do Mediterrâneo pela Ibéria.
A coincidência é sonora e nada mais, mas confunde muita gente. Quem ouve "oxalá chova" costuma achar que a frase cita o orixá. Não cita: a palavra árabe já estava firme na fala portuguesa muito antes do primeiro navio negreiro cruzar o oceano. Dois deuses, dois continentes, o mesmo som encontrado por acaso no Brasil.
III
O que fica
Oxalá mostra bem o que a língua faz com a religião. Ela não converte, não discute doutrina e não pergunta a fé de ninguém, apenas guarda o que é útil e apaga o resto do rótulo. A embalagem some, a função continua servindo.
A gramática guardou uma pista do desmonte. Oxalá exige subjuntivo: oxalá chova, oxalá dê certo, oxalá ele volte. Quem fala está usando a subordinada de uma condicional cuja oração principal desapareceu há séculos. O "se" sumiu, o "Deus" sumiu, e o modo verbal segue obedecendo aos dois.
O português está cheio de fé fossilizada da mesma forma. Adeus é "a Deus te encomendo" reduzido a duas sílabas de despedida. O inglês goodbye era God be with ye. Tchau veio do veneziano s'ciavo, sou seu escravo, e nem a servidão sobrou. As fórmulas mais pesadas viram as palavras mais leves.
Oxalá é o caso extremo da lista, porque o deus invocado não é o da maioria de quem invoca. Nenhuma outra palavra do português cotidiano chama pelo nome o deus de outra religião e passa despercebida em cem por cento das vezes, inclusive na boca de quem jura não rezar para nenhum.
E tem uma ironia guardada no idioma de origem. No mundo árabe, in šāʾ Allāh virou também a forma educada de avisar que a coisa provavelmente não vai acontecer, o adiamento gentil que todo mundo entende sem precisar de explicação. O português ficou só com a metade otimista da fórmula.
Na próxima vez que a palavra escapar, na fila do banco ou numa conversa sobre chuva, vale ouvir o que está sendo dito. É uma prece de mil e quatrocentos anos, numa língua que você não fala, endereçada a um deus que talvez não seja o seu, e mesmo assim ela entrega o recado inteiro: que o futuro coopere.
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Toda palavra é um fóssil.
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