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A LINHA DO TEMPO roma republicana → triunfos militares → uso eclesiástico → teatro → estádios |
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Quando o público em pé aplaude por dez minutos, está fazendo, sem saber, um ritual romano de sacrifício animal. Ovação não significa "muitos aplausos". Significa, etimologicamente, sacrifício de uma ovelha. A palavra mais comum do teatro e dos estádios carrega no DNA o cheiro de sangue, lã e fumaça de altar. I A raizOvatio vem de ovis, a palavra latina para ovelha. Era um tipo específico de cerimônia triunfal romana, menor e mais modesta que o triumphus. Quando um general romano vencia uma batalha importante mas que não atendia a todos os critérios formais para um triunfo completo, recebia uma ovatio. O triumphus exigia o sacrifício de um touro branco a Júpiter no Capitólio. Animal majestoso, caro, símbolo de poder máximo. A ovatio exigia apenas o sacrifício de uma ovelha. Animal menor, mais barato, menos imponente. A diferença na escala do sacrifício refletia a diferença na escala da honra concedida. Os critérios eram técnicos. Para receber um triunfo, o general precisava ter vencido uma guerra declarada formalmente, ter matado pelo menos cinco mil inimigos, ter expandido fronteiras do império. Ovação se concedia quando a vitória era importante mas não atendia a todos esses requisitos. Vitórias contra escravos rebelados, contra piratas, contra inimigos sem cidadania, geralmente recebiam ovação. A palavra começou descrevendo segunda divisão.
II A viagemA cerimônia da ovatio tinha protocolos específicos. O general entrava em Roma a pé ou montado, não em carruagem como nos triunfos. Vestia toga branca com bordados roxos, não a túnica triunfal de Júpiter. Levava na cabeça uma coroa de mirta, não de louro. A escolta era reduzida. As trombetas tocavam menos. A multidão, embora presente e celebratória, era esperada como menos numerosa. Mas a multidão fazia barulho. Aplausos, gritos, vivas. O som coletivo do reconhecimento popular. Os romanos chamavam essa manifestação sonora de ovatio também, por contiguidade. A cerimônia inteira ganhou o nome do som que produzia. Marco Crasso recebeu uma ovatio depois de derrotar Espártaco em 71 a.C. A vitória era enorme em termos militares, mas como Espártaco era escravo e gladiador, não inimigo digno do povo romano, Crasso não conseguiu o triumphus. Teve que se contentar com a ovação. Reza a história que ele insistiu em receber a coroa de louros do triunfo, mesmo na cerimônia menor, como gesto de protesto. Com o fim do Império Romano, a ovatio como ritual militar formal desapareceu. A palavra sobreviveu. No latim eclesiástico medieval, ovatio passou a significar genericamente "celebração jubilosa", "manifestação ruidosa de alegria". Os manuscritos monásticos usavam a palavra para descrever festas religiosas, comemorações de santos, cerimônias de coroação. O teatro renascentista italiano e francês adotou ovazione e ovation nos séculos XVI e XVII para descrever os aplausos prolongados que recebiam grandes atores no fim de uma apresentação. A metáfora era exata: assim como o general recebia ovação ao retornar da batalha, o ator recebia ovação ao terminar a peça. Ambos voltavam vitoriosos diante da multidão. A entrada no português aconteceu por essa via teatral. Já em Garrett, no século XIX, a palavra aparecia descrevendo aplausos de teatro. No Brasil do início do século XX, ovação virou termo padrão para descrever recepções calorosas em teatros, óperas, salas de concerto. A palavra se popularizou definitivamente com o esporte. Estádios brasileiros adotaram ovação para descrever quando o público inteiro se levantava pra aplaudir um jogador. Pelé recebia ovações. Maradona recebia ovações. A palavra virou métrica subjetiva de grandeza esportiva. A ovelha foi esquecida no caminho. O sacrifício, também. Sobrou só o som da multidão. III O que ficaOvação é uma das palavras mais domesticadas do português moderno. Foi triunfo militar romano. Foi sacrifício de ovelha. Foi cerimônia litúrgica. Foi aplauso teatral. Hoje é apenas o que se faz em estádios e teatros quando alguém merece reconhecimento prolongado. Mas há algo permanente debaixo de todas essas mudanças. A ovação sempre foi reconhecimento público de uma vitória. A diferença entre o triunfo e a ovação, entre o boi e a ovelha, era a escala da glória. E mesmo hoje, quando alguém recebe uma ovação de pé, está sendo reconhecido como vitorioso, mas não como o maior. O segundo. O respeitado. O homenageado. A linguagem preserva a hierarquia que a história esqueceu. A ovelha continua viva no aplauso, mesmo que ninguém ouça o eco do sacrifício. Toda palavra é um fóssil. |
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O RITUAL DIÁRIO Todo dia, às 12:12. Uma palavra. Dois minutos. A Origem das Palavras. Uma palavra. Uma história. |