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Hoje, nostalgia é uma emoção agridoce que aparece quando você ouve uma música antiga ou abre uma foto velha. No século XVII, era diagnóstico médico. Poderia matar.
I
A raiz
A palavra foi inventada em 1688 por Johannes Hofer, um estudante de medicina suíço de 19 anos, na sua tese de doutorado na Universidade de Basel. Hofer precisava de um termo técnico para descrever uma doença que acometia soldados mercenários suíços servindo em terras estrangeiras.
Ele fundiu duas palavras gregas: nostos (νόστος), que significa retorno ou viagem de volta para casa, e algos (ἄλγος), que significa dor, sofrimento. A dor do retorno. A dor de querer voltar e não poder.
Os gregos antigos não usavam a palavra "nostalgia". Hofer construiu o neologismo a partir do grego, mas a palavra é moderna. É grego de laboratório, não de praça.
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"A causa da doença é o desejo ardente de retornar à pátria." Johannes Hofer, Dissertatio Medica de Nostalgia, Basel, 1688.
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II
A viagem
A Suíça do século XVII exportava soldados. Mercenários suíços serviam nos exércitos da França, da Espanha, dos Países Baixos. Jovens de vilarejos alpinos, acostumados ao ar das montanhas, aos sinos das vacas, ao dialeto local, eram enviados para planícies úmidas e cidades estrangeiras. Muitos adoeciam. Febre, insônia, perda de apetite, apatia, choro constante.
Os médicos militares notaram que a doença era mais severa nos suíços do que em soldados de outras nacionalidades. A explicação da época era fisiológica: o ar rarefeito dos Alpes teria expandido o sangue dos suíços, e ao descerem para terras baixas, a pressão atmosférica diferente causava desconforto corporal. Uma explicação errada, mas coerente para a ciência da época.
Hofer diagnosticou a causa como psicológica: o desejo insuportável de retornar. Na tese, ele descreveu pacientes que só melhoravam quando recebiam permissão para voltar para casa. Alguns morriam antes de conseguir.
A nostalgia foi tratada como doença militar séria durante dois séculos. No exército francês, durante as guerras napoleônicas, médicos registravam casos de "nostalgie" entre soldados acampados longe da terra natal. O tratamento variava: sanguessugas, purgantes, ameaça de punição (sim, um general russo supostamente ameaçou enterrar vivo qualquer soldado diagnosticado com nostalgia). Em alguns casos, mandavam o soldado para casa. Esse era o único tratamento que funcionava.
Na Guerra Civil Americana (1861-1865), médicos do Exército da União registraram milhares de casos de nostalgia. O cirurgião-geral listava a doença nas estatísticas oficiais de baixas, ao lado de malária, disenteria e febre tifoide.
No final do século XIX, a nostalgia perdeu o status de doença. A psicologia e a psiquiatria emergentes reclassificaram-na como sintoma, não como diagnóstico independente. Ao longo do século XX, a palavra migrou completamente do campo médico para o campo emocional. Deixou de ser patologia e virou sentimento: a emoção suave e agridoce de lembrar algo bom que passou.
Hoje, a nostalgia é até estudada como emoção positiva. Pesquisas em psicologia mostram que sentir nostalgia pode aumentar a sensação de pertencimento, de continuidade da identidade e até aquecer literalmente (pessoas nostálgicas em laboratório relatam sentir mais calor). De doença fatal a emoção reconfortante em três séculos.
III
O que fica
Uma palavra inventada por um estudante suíço de 19 anos num trabalho acadêmico de 1688 é hoje usada por bilhões de pessoas em dezenas de idiomas. Hofer construiu a palavra como ferramenta clínica. O mundo a transformou em poesia.
A dor do retorno. Isso é o que "nostalgia" diz, toda vez que alguém a usa. Mesmo quando a pessoa que sente nostalgia não quer voltar a lugar nenhum, apenas a um tempo.
A palavra sabe o que significa. Mesmo que quem a diz tenha esquecido.
Toda palavra é um fóssil.
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