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Mentor é uma daquelas palavras que a gente usa como elogio sem reparar no peso. Um bom mentor no primeiro emprego, o mentor que orientou a tese, o mentor de negócios que cobra caro pela hora, o professor que virou mentor de uma geração inteira. Em todos os casos o sentido é o mesmo: alguém mais velho e mais experiente que caminha ao lado de quem ainda está aprendendo.
O que quase ninguém imagina é que a palavra é, na origem, o nome de uma única pessoa. Antes de virar cargo, função e profissão, Méntor foi um personagem de carne e osso na Odisseia, um velho de Ítaca a quem Ulisses confiou a casa e o filho. E há uma reviravolta na história, porque o conselho mais importante que sai da boca desse velho não é dele. É de uma deusa disfarçada.
I
A raiz
A cena está logo no começo da Odisseia. Ulisses parte para a guerra de Troia e deixa para trás um recém-nascido, Telêmaco, e um reino sem rei. Antes de embarcar, entrega o governo da casa e a educação do menino a um amigo de confiança, já idoso, chamado Méntor. A guerra dura dez anos, a volta dura outros dez, e o velho fica encarregado de segurar tudo enquanto o dono não aparece.
Quando o poema começa, Telêmaco é um rapaz perdido. O pai não voltou, o palácio está tomado por pretendentes que querem a mãe e a herança, e ninguém no reino toma partido. É nesse ponto que a orientação aparece, e ela chega com o rosto de Méntor, mas não com a alma dele. Alguém precisa dizer ao jovem o que fazer, e quem se oferece não é humano.
Quem assume a forma do velho é Atena, a deusa da sabedoria. Ela empresta a aparência, a voz e a autoridade de Méntor para se aproximar de Telêmaco sem assustá-lo, e o empurra a agir: convocar a assembleia, sair em busca de notícias do pai, parar de esperar e virar adulto. O conselho é divino, o invólucro é humano. A deusa fala, o velho apenas cede o corpo.
E o nome não foi escolhido ao acaso. Méntōr vem de uma raiz grega antiquíssima, men-, a mesma que está por trás de mente, de mental, de memória. O sentido embutido é o de quem pensa, lembra e aconselha. O poeta deu ao guardião do menino um nome que já queria dizer, mais ou menos, aquele que faz pensar. A função estava escrita na própria palavra.
Vale a ressalva logo de saída. Que a raiz men- signifique pensar é ponto pacífico entre os estudiosos. Se o nome foi escolhido de propósito, como um trocadilho fino, ou se a coincidência apenas caiu bem, ninguém pode jurar. A etimologia entrega o parentesco da palavra com segurança, a intenção por trás da escolha fica no terreno da hipótese, não do fato fechado.
Fica no ar, então, uma ironia dobrada. A figura que batizou toda forma de orientação sábia carrega um nome que já significava conselheiro, e a sabedoria que ela transmite no poema nem sequer é sua. Quem fala pela boca de Méntor é Atena. O ser humano é o rosto, a divindade é a voz, e a palavra que herdamos guarda o rosto e esquece a voz.
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Méntor já queria dizer conselheiro antes de qualquer conselho ser dado, porque nasce da mesma raiz que mente e memória, e ainda assim a sabedoria que corre pelo poema não pertence ao velho de Ítaca: pertence a Atena, que veste o rosto dele para orientar um rapaz sem pai, de modo que a palavra celebra, até hoje, o mensageiro humano de uma voz que era divina.
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II
A viagem
Por muito tempo o nome ficou preso ao poema, um personagem secundário entre tantos. A Odisseia atravessou a Antiguidade sendo copiada, recitada e estudada, e Méntor seguia ali, discreto, o velho a quem a deusa pedia emprestada a aparência. Ninguém ainda usava a palavra para dizer conselheiro em geral. O nome era de um só homem, e ficava onde o poeta o havia deixado.
A virada veio muito depois, no fim do século XVII, na França. Um religioso e escritor chamado François Fénelon, encarregado de educar o neto do rei Luís XIV, escreveu um romance chamado As Aventuras de Telêmaco. Nele, o velho Méntor deixa de ser figurante e vira o protagonista moral, o guia que conduz o jovem príncipe por reinos estrangeiros e lições de bom governo.
O livro foi um fenômeno editorial. Serviu de manual disfarçado de aventura para príncipes de meia Europa, foi traduzido para dezenas de línguas e lido por gerações inteiras. E foi ali, na esteira daquele sucesso, que mentor deixou de ser um nome próprio e passou a nomear qualquer conselheiro sábio e experiente. O personagem saltou da página e virou substantivo comum.
Do francês a palavra se espalhou quase sem retoque. Entrou no inglês como mentor, no espanhol como mentor, no italiano como mentore, e no português igual. Poucas palavras fazem o caminho contrário com tanta clareza, de nome de gente para conceito, de um único velho da ficção para uma função que existe em toda empresa e em toda universidade do mundo.
E o parentesco escondido é vasto. A raiz men- rendeu mente, mental, mencionar, reminiscência, comentário, demência. Rendeu até a deusa: Minerva, a Atena dos romanos, guarda a mesma raiz de pensamento no nome. Quem diz mentor está, sem saber, na mesma família da mente que ele deveria despertar. A palavra e a coisa que ela nomeia vêm do mesmo lugar.
Há uma distinção fina que o termo guarda. Um professor ensina uma matéria, um tutor acompanha uma tarefa, mas um mentor faz outra coisa. Ele empresta presença e exemplo mais do que conteúdo, caminha ao lado em vez de falar de cima. Não é por acaso que Atena, no poema, anda junto de Telêmaco de porto em porto em vez de despachar ordens do alto do céu.
No século XX a palavra ganhou um segundo fôlego no vocabulário do trabalho. Empresas montaram programas de mentoria, universidades formalizaram a figura do mentor, e o termo virou item de currículo e de crachá. O velho de Ítaca, que nunca existiu fora de um poema, hoje aparece na descrição de vagas e na fala de gente que jamais ouviu falar de quem ele foi.
III
O que fica
A palavra guarda uma troca curiosa de lugar. Nasceu como nome próprio de um coadjuvante e terminou como rótulo universal para toda figura que orienta. O secundário de um poema virou uma das funções mais desejadas do mundo do trabalho. Poucos nomes de personagem tiveram destino parecido, saindo da margem da história para o centro da conversa.
E a ressalva pesa tanto quanto a história. A força da palavra não vem do velho, vem da deusa que se escondia nele. Quem procura na origem de mentor um modelo de sábio encontra, no fundo, uma ideia mais desconfortável: às vezes a melhor orientação chega disfarçada, pela boca de alguém comum, sem nenhum aviso de que a voz por trás é divina.
O que sobreviveu ao tempo foi a função, não a pessoa. Ítaca virou ponto turístico, a Odisseia virou leitura de escola, o romance de Fénelon virou raridade de sebo. Sobrou a experiência exata de ser conduzido por alguém que já andou o caminho, e que aparece justamente na hora em que a gente não sabe qual é o próximo passo a dar.
A diferença entre ensinar e orientar rende uma ferramenta prática. Ensinar transmite um conteúdo que se pode anotar, orientar transmite um rumo que só se percebe andando. Confundir os dois é o erro clássico de quem procura um mentor esperando uma aula, ou de quem procura uma aula esperando um mentor. São coisas de natureza diferente.
E há um recado embutido em cada uso moderno da palavra. Quando alguém chama outro de mentor, está dizendo, sem perceber, que a sabedoria precisa de um rosto. A voz de Atena não chegou a Telêmaco como trovão vindo do céu, chegou como um velho conhecido da família. Conselho puro, sem ninguém por trás, não se ouve. Precisa de alguém em quem confiar.
Na próxima vez que a palavra aparecer, num programa de mentoria ou no elogio a quem te ajudou a crescer, vale lembrar da cena que a fez nascer. De um velho de Ítaca encarregado de um menino sem pai por perto, de uma deusa que vestiu o rosto dele para dar o empurrão certo, e de um nome que já queria dizer, desde sempre, aquele que faz pensar.
Toda palavra é um fóssil.
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