|
Revista de moda e paiol de munição dividem a mesma certidão de nascimento. Makhzan, o armazém árabe, é um cofre que cada século encheu com outra coisa. Vale abrir esse cofre devagar.
A palavra que hoje nomeia uma revista de papel brilhante ou uma publicação digital tem a mesma origem que o depósito de munições de um navio de guerra, a câmara de armas de um forte e o grande armazém comercial de uma cidade portuária. Magazine, em todas as suas formas, a revista, o carregador de bala, a loja, guarda dentro de si o árabe makhzan: aquele lugar onde se estoca, onde se reserva, onde se concentra o que será distribuído depois.
Um depósito. Uma acumulação. Um armazém de coisas.
I
A raiz
Em árabe, a raiz trilítera kh-z-n gira em torno da ideia de guardar, estocar, reservar. O verbo khazana significa "guardar em depósito". Khazina é o tesouro, a câmara do erário. Makhzan é o lugar onde se guarda: armazém, câmara de reservas, depósito.
A palavra era amplamente usada no mundo islâmico medieval para designar tanto depósitos físicos (de grãos, especiarias, mercadorias, armas) quanto as câmaras do tesouro de califas e sultões. Makhzen (variante da mesma raiz) é ainda hoje, em árabe marroquino, o nome do governo, do Estado, literalmente "o tesouro", "o depósito do poder". O Marrocos chama seu governo de Al-Makhzen.
A riqueza semântica da raiz árabe, guardar, reservar, concentrar valor, foi a chave para toda a trajetória posterior da palavra nas línguas europeias.
|
"The original sense was of a storehouse or treasury; thence it was applied metaphorically to a publication considered as a storehouse of information." Oxford English Dictionary, entrada "magazine", 2ª edição, 1989.
|
II
A viagem
O árabe makhzan entrou no italiano medieval como magazzino, armazém, depósito, especialmente os grandes depósitos portuários das cidades comerciais como Gênova, Veneza e Nápoles, que mantinham intenso comércio com o mundo islâmico mediterrâneo. Do italiano, a palavra passou ao espanhol como almacén (com o artigo árabe al- incorporado, fenômeno comum nas palavras árabe-espanhol) e ao francês como magasin.
Em inglês, magazine apareceu no século XVI com o sentido físico de depósito, especialmente depósito militar de pólvora e munições. O Oxford English Dictionary documenta o uso militar desde a segunda metade do século XVI. Um magazine era a câmara onde um forte ou navio guardava sua pólvora: local isolado, protegido, de acesso restrito.
O salto semântico para publicação aconteceu em 1731, com o lançamento do The Gentleman's Magazine em Londres, a primeira publicação a usar o termo no título, fundada por Edward Cave.
A justificativa era explícita: o editor descreveu a publicação como um "armazém" (magazine) de textos variados e úteis, uma câmara de reservas de informação onde o leitor encontraria material acumulado de diversas fontes. Era uma metáfora editorial declarada.
A ideia funcionou. The Gentleman's Magazine circulou por 178 anos, de 1731 a 1914, e estabeleceu o modelo e o nome do gênero. Outras publicações adotaram o termo: The Edinburgh Magazine, Blackwood's Magazine, Harper's Magazine (1850, ainda em circulação).
O magazine como gênero editorial, publicação periódica com textos variados, de diferentes autores, sobre diferentes assuntos, tornou-se uma das formas culturais centrais dos séculos XVIII, XIX e XX.
Em português, magazine chegou tanto pela via do inglês (especialmente para publicações) quanto pela via do francês (para lojas e armazéns).
O Brasil do século XIX e início do século XX usava magazine para as grandes lojas de departamentos, a Au Bon Marché carioca, o Mappin Stores, depois o Magazine Luiza, fundado em 1957 em Franca, São Paulo.
A cadeia de lojas mais popular do Brasil guarda, no nome, o árabe makhzan.
No uso técnico, magazine em português ainda designa o carregador de um rifle ou de uma câmera fotográfica analógica, o depósito de munições ou de filme fotográfico. A metáfora do depósito atravessou quatro séculos e três domínios: armas, imprensa, comércio.
III
O que fica
Magazine é um daqueles casos que revelam como as metáforas editoriais têm raízes mais profundas do que parecem.
Quando Edward Cave chamou sua publicação de magazine em 1731, estava fazendo uma escolha precisa: não era um jornal (notícias imediatas), não era um livro (obra única, autoral), não era um panfleto (argumento específico).
Era um armazém, um lugar onde coisas variadas se acumulam para que o leitor possa ir buscar o que precisa.
A metáfora do depósito de conhecimento é muito mais antiga do que a imprensa. Bibliotecas medievais eram chamadas de "tesouros". Florilégio, a antologia de textos antigos, vem do latim para "coleta de flores". Commonplace books eram os cadernos onde leitores cultos da Renascença guardavam passagens e citações para uso futuro.
O impulso de guardar e catalogar o conhecimento é constante; o que muda é a forma.
Magazine, ao percorrer dez séculos do árabe ao digital, comprova que guardar é um gesto civilizatório fundamental. Todo depósito, de grãos, de munições, de textos, de notícias, parte da mesma ideia: o futuro é incerto, então reserve o que for valioso.
A palavra que nomeia sua revista favorita é um armazém. Sempre foi.
---
Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
|