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Quando a gripe bate, você toma paracetamol e fica na cama. Os italianos do século XIV olhavam pro céu. Porque "influenza" significava exatamente isso: influência. Dos astros. Sobre o corpo humano.
I
A raiz
A palavra vem do latim influentia, derivada de influere: fluir para dentro. Na cosmologia medieval, os astros não ficavam parados no céu. Eles emitiam emanações, forças invisíveis que "fluíam para dentro" dos corpos humanos, afetando saúde, humor e destino.
Quando uma doença aparecia de repente e atingia muita gente ao mesmo tempo, a explicação era celestial: os planetas estavam numa posição que enviava influências maléficas. A doença era a consequência de uma má influentia. O nome da causa virou o nome do efeito.
Em italiano, influentia se encurtou para influenza. E se especializou: deixou de significar qualquer influência astral e passou a designar especificamente as epidemias de doenças respiratórias que varriam a Itália ciclicamente.
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"Os astros inclinam, mas não obrigam." Tomás de Aquino, Summa Theologica, sobre influência astral e livre-arbítrio.
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II
A viagem
A teoria da influência astral sobre a saúde não era superstição popular. Era ciência oficial. Galeno, o médico grego do século II, já conectava o estado dos astros com epidemias. Hipócrates, antes dele, associava surtos de doença a mudanças sazonais e "ares pestilentes". A medicina medieval europeia absorveu ambas as tradições e formalizou: doenças coletivas vinham do céu, literalmente.
A peste negra de 1348 reforçou a crença. A Faculdade de Medicina de Paris, consultada pelo rei da França sobre a origem da peste, emitiu um relatório oficial culpando a conjunção de Saturno, Júpiter e Marte no signo de Aquário em março de 1345. Três anos antes da peste. O relatório era científico para os padrões da época.
As epidemias de gripe eram frequentes na Itália. Em 1357, em Florença, um surto severo foi chamado de influenza di freddo (influência do frio). Em 1504, outro surto recebeu o nome de influenza delle stelle (influência das estrelas). Em 1743, uma epidemia particularmente violenta que começou na Itália se espalhou pela Europa. Os médicos ingleses adotaram a palavra italiana sem tradução: influenza.
O inglês já tinha a palavra "flu" como abreviação informal. Mas influenza permaneceu como termo técnico e científico. Quando a pandemia de 1918 matou entre 50 e 100 milhões de pessoas no mundo, o nome oficial era influenza. Quando a OMS classifica cepas de vírus, usa H1N1, H3N2, todas subcategorias de Influenza A ou Influenza B.
A ironia é total. A palavra foi criada numa época em que ninguém sabia o que era um vírus. A causa real (um microorganismo invisível) só seria descoberta em 1933, quando Wilson Smith, Christopher Andrewes e Patrick Laidlaw isolaram o vírus da influenza humana pela primeira vez.
De Florença medieval a laboratórios da OMS em Genebra, a palavra fez a viagem inteira sem ser substituída. O diagnóstico mudou. O tratamento mudou. A compreensão da doença mudou radicalmente. Mas o nome ficou. Uma palavra astrológica batizando uma doença viral.
III
O que fica
"Influenza" é uma palavra que carrega dentro de si um modelo de mundo que a ciência demoliu. Ninguém mais acredita que a gripe vem dos planetas. Mas todo mundo continua usando um nome que diz exatamente isso.
A medicina moderna não se deu ao trabalho de renomear. Preferiu herdar o som e ignorar o significado. É assim que a maioria das palavras funciona: o uso mata a etimologia, e a palavra segue funcionando como se nunca tivesse significado outra coisa.
Mas significou. E toda vez que um médico escreve "influenza" num prontuário, está registrando, sem saber, a assinatura de uma era que explicava o mundo olhando pra cima.
Toda palavra é um fóssil.
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