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Hipócrita já foi profissão respeitada: o ator mascarado dos festivais de Atenas. A acusação moral favorita do Ocidente começou recebendo cachê. O percurso do palco ao púlpito rende boa história.
Toda vez que alguém é chamado de hipócrita, está sendo comparado a um ator. Não metaforicamente, etimologicamente. Em grego clássico, hypokritēs era o nome técnico do ator de teatro: quem interpretava um papel no palco, falava pela máscara, dava voz a um personagem que não era ele.
Não havia carga moral. Era uma descrição de ofício. A palavra que hoje define a falsidade mais condenada nas relações humanas começou como título profissional nos festivais dionisíacos de Atenas.
I
A raiz
O verbo grego krinein (κρίνειν) significa "separar", "distinguir", "julgar". É o mesmo verbo que está na raiz de critério, crítica, crise (o momento em que se julga, em medicina antiga, o ponto decisivo de uma doença) e hipócrite.
Com o prefixo hypo- (sob, a partir de baixo, em resposta a), formou-se hypokrinomai, "responder", "interpretar", "dar uma resposta a partir de baixo do palco ou da máscara".
Hypokritēs era, literalmente, quem respondia. No teatro grego arcaico, havia uma estrutura de pergunta e resposta entre o coro e um personagem solista.
Esse solista, que Aristóteles credita a Téspis de Icária, inventor do drama no século VI a.C., era o hypokritēs: o que respondia ao coro, que interpretava, que dava voz ao papel. A máscara (prosopon) era parte integral do ofício: cada ator usava máscaras para os diferentes personagens que interpretava.
Não havia desonra no termo. Os atores eram artistas respeitados nos festivais dionisíacos, os concursos dramáticos de Atenas eram eventos cívicos e religiosos de primeira importância. Ésquilo, Sófocles e Eurípides eram hypokritai além de dramaturgos. A palavra descrevia um papel social preciso e valorizado.
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"O hypokritēs grego era o intérprete profissional que respondia ao coro no teatro dionisíaco. Não havia nenhuma conotação pejorativa: a 'representação' era uma arte sagrada e o hypokrinomai designava técnica, não falsidade." Walter Burkert, Griechische Religion der archaischen und klassischen Epoche, 1977.
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II
A viagem
O deslizamento semântico começou no período helenístico, quando hypokrinomai passou a ser usado fora do contexto teatral para designar qualquer simulação. Quem fingia sentir algo que não sentia, quem adotava um comportamento calculado para uma plateia, estava sendo, metaforicamente, um ator. A linguagem transferiu o vocabulário do palco para o da vida cotidiana.
O grego do Novo Testamento foi decisivo. Jesus usa o termo hypokritēs repetidamente nos Evangelhos, e o alvo eram os fariseus e escribas que realizavam atos religiosos (oração, jejum, esmola) de forma ostensiva, para ser vistos pelos outros, sem a correspondente disposição interior.
Em Mateus 23, a palavra aparece oito vezes seguidas. O Sermão da Montanha usa hypokritēs com precisão técnica: quem reza em público para ser admirado é um ator, não um devoto.
O impacto dessa escolha vocabular foi enorme. Como os Evangelhos foram escritos em grego e a Vulgata latina traduziu hypokritēs como hypocrita, o termo entrou no vocabulário moral do Ocidente cristão com peso teológico específico. Não era só quem mentia, era quem traía o sagrado com performance de fé. A hipocrisie religiosa tornou-se, na ética cristã medieval, uma das formas mais graves de falsidade.
Em francês medieval, hypocrite já significava exclusivamente o falso, o enganador, o que fingia virtude. O mesmo percurso no espanhol, italiano e português. A palavra chegou ao português como hipócrita, e o ofício do ator ficou completamente apagado. Ningém que ouve "você é um hipócrita" pensa em teatro. Pensa em traição, em máscara, em falsidade deliberada.
Curiosamente, o campo semântico do teatro produziu outras palavras que fizeram percurso oposto: persona (a máscara do ator romano) virou o eu psicológico, o eu autêntico, a personalidade. A máscara teatral que em hipócrita ficou associada à falsidade, em persona ficou associada à identidade. As duas palavras nasceram do mesmo objeto, a máscara, e foram para direções completamente opostas.
III
O que fica
A história de hipócrita levanta uma questão filosófica que os gregos já conheciam: onde está a linha entre representar e ser? Todo papel social implica alguma performance. A educação é, em parte, o aprendizado de comportamentos que só depois se internalizam. A cortesia precede a estima genuína. A disciplina aparece antes da motivação.
Os gregos não tinham má vontade com o ator. O problema, para o Evangelho e para a ética que dele derivou, era a performance que substituía, em vez de expressar, o interior. O hipócrita não é quem age antes de sentir, é quem age para ser visto, e só para isso.
A palavra guardou, na sua estrutura, a pergunta que não tem resposta fácil: a diferença entre o ator e o hipócrita é a intenção, e a intenção é a única coisa que ninguém além do próprio sujeito pode aferir. Por isso hipócrita é um insulto tão eficaz. Acusa o outro de algo que, por definição, ele pode sempre negar.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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