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A palavra mais dura para nomear o fracasso público começou como uma garrafa de vinho. Nada de dramático: louça de taberna, peça de oficina. E ainda assim virou o nome do vexame. Vale entender como o vidro veneziano deu errado.
A palavra que hoje nomeia o fracasso mais vexatório, o espetáculo que desanda, a estreia que vira desastre público, começou como um objeto banal e concreto: uma garrafa de vidro. Fiasco, em italiano, é a garrafa bojuda de gargalo estreito, muitas vezes revestida de palha trançada, que guardava o vinho da Toscana.
Não havia nada de dramático nela. Era louça de mesa, utensílio de taberna, peça de oficina. E ainda assim, dessa garrafa saiu uma das metáforas mais duras que uma língua pode oferecer a quem falha em público.
I
A raiz
Em italiano, fiasco designa a garrafa de vidro de corpo redondo e pescoço fino, tradicionalmente usada para engarrafar vinho. A palavra vem do latim tardio flasco, de onde também descendem o português frasco, o espanhol frasco e o francês flacon. A mesma raiz germânica que atravessou o latim medieval está no inglês flask.
O objeto era humilde e onipresente na Itália. Nas oficinas de vidro, especialmente nas famosas vidrarias venezianas de Murano, o fiasco era uma das peças correntes que o soprador de vidro produzia todo dia. E era justamente por ser tão comum que se tornou o parâmetro do erro.
Um mestre vidreiro que estava trabalhando numa peça de arte fina, um vaso, uma taça elaborada, e percebia que o vidro havia empenado, trincado ou perdido a forma, não jogava o material fora. Ele o transformava numa peça simples, sem valor artístico. Numa garrafa comum. Em outras palavras, quando a obra ambiciosa dava errado, o vidreiro fazia uma garrafa.
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"Far fiasco: locuzione che significa fallire, non riuscire in un'impresa, con allusione probabile al mestiere dei vetrai." Vocabolario della lingua italiana Treccani, entrada "fiasco".
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II
A viagem
A expressão que consolidou o sentido figurado foi far fiasco, literalmente "fazer garrafa". Da oficina de vidro, ela migrou para o palco. No teatro italiano dos séculos XVIII e XIX, far fiasco passou a designar o espetáculo que fracassava diante da plateia: o ator que era vaiado, a peça que naufragava na estreia, a apresentação que desandava em desastre público.
A ligação entre a garrafa e o fracasso teatral tem mais de uma explicação concorrente, e os próprios dicionários italianos registram a incerteza. Uma linha aponta direto para as vidrarias: assim como o vidreiro que errava a peça fina acabava fazendo apenas uma garrafa, o artista que errava em cena "fazia fiasco".
Outra tradição, ligada ao mundo do teatro popular, conta que atores cômicos improvisavam números em torno de uma garrafa comum, e quando a piada não engatava, a culpa recaía sobre o objeto: far fiasco.
O que os estudiosos concordam é sobre o destino da expressão. No teatro italiano, far fiasco virou o termo consagrado para o naufrágio de um espetáculo. E o teatro italiano, no século XIX, era uma potência cultural exportada para toda a Europa.
A ópera, a commedia, os grandes cantores e as grandes montagens circulavam por Paris, Londres, Viena, Lisboa. Com eles viajou o jargão.
O francês adotou fiasco já no início do século XIX, no sentido de fracasso retumbante, especialmente artístico. O inglês registrou fiasco por volta de 1850, também importado do meio teatral, para designar o espetáculo, e por extensão qualquer empreitada, que termina em desastre completo.
O português recebeu fiasco pela mesma corrente cultural europeia, com o sentido já plenamente figurado: fracasso vergonhoso, empreendimento que desanda de forma pública e retumbante. Um lançamento que ninguém compra é um fiasco. Uma festa para a qual ninguém aparece é um fiasco. Um plano ambicioso que colapsa diante de todos é um fiasco.
Curiosamente, o objeto original quase desapareceu do vocabulário cotidiano de quem usa a palavra. Poucos, ao dizer que algo foi um fiasco, lembram que estão invocando uma garrafa de vinho toscano revestida de palha. A metáfora engoliu o objeto.
III
O que fica
Fiasco é um caso exemplar de como uma palavra concreta e neutra pode ser sequestrada por uma metáfora e nunca mais voltar ao sentido literal.
Em português, fiasco praticamente só existe no sentido de fracasso. A garrafa ficou para trás, presa na Itália, dentro do italiano, onde fiasco ainda é, antes de tudo, o objeto sobre a mesa.
A trajetória revela algo sobre a natureza do fracasso público. O vidreiro que errava a peça fina não destruía o vidro, ele o rebaixava. A obra que aspirava a ser arte descia à condição de utensílio. Há, nessa origem, uma humilhação silenciosa: o fiasco não é o nada, é o pouco. É o que sobra quando a ambição não se realiza.
O teatro apenas tornou pública essa lógica. A estreia que dá errado não some, ela permanece, diminuída, exposta ao julgamento de todos. O fiasco é o fracasso que tem plateia. Não o erro reservado, o tropeço íntimo, mas o desastre que acontece à vista de quem veio assistir.
Toda vez que alguém chama um projeto malsucedido de fiasco, está repetindo, sem saber, o gesto do mestre vidreiro veneziano diante da peça empenada. A ambição que se quebra não vira lixo. Vira garrafa. E a garrafa, séculos depois, virou a palavra que usamos para nomear o vexame de tudo que promete muito e entrega o naufrágio.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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