|
Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira. O brasileiro repete a contagem a semana inteira sem estranhar nada, como se numerar os dias fosse a coisa mais natural do mundo. Foi o que a escola ensinou e ninguém voltou a questionar.
Só que nenhuma outra língua latina faz igual. O espanhol tem lunes, o francês tem lundi, o italiano tem lunedì, os três dizendo dia da Lua. O português é o único que expulsou os planetas do calendário, e a palavra que ocupou o lugar deles é a mesma que hoje nomeia a barraca de tomate da esquina.
I
A raiz
Feira vem do latim feria, e feria não tinha nada a ver com comércio. Era dia santo. No plural, feriae, o termo nomeava as datas em que tudo parava por ordem religiosa: os tribunais fechavam, o campo descansava, e o dia ficava reservado aos deuses.
A raiz é a mesma de um punhado de palavras que parecem não ter parentesco nenhum. Festus deu festa. Fanum, o templo, deu profano, quem estava pro fano, diante do templo e ainda do lado de fora, e deu fanático, o fanaticus possuído pelo santuário. Feira, festa e fanático vieram do mesmo caldo de sagrado.
Do lado de cá, feriae deixou herdeiros mais óbvios. Feriado é o dia feriatus, tornado santo. Férias são as feriae inteiras, no mesmo plural que o latim já usava. E féria, em Portugal, é o apurado do dia de trabalho, uma pista precoce de onde a história vai terminar.
Foi a Igreja que pegou a palavra e mudou o serviço dela. No latim litúrgico, cada dia virou uma feria numerada: feria secunda, feria tertia, feria quarta, e por aí adiante. A conta começa no domingo, o dia do Senhor, e daí a nossa semana abrir numa segunda que não é a primeira de nada.
O modelo veio do calendário judaico, onde o sábado é o marco e os outros dias se contam a partir dele. O cristianismo trocou a âncora pelo domingo, dia da ressurreição, e manteve a aritmética intacta. Sábado ficou sendo sabbatum, do hebraico shabbat, descanso. Domingo virou dominicus, do Senhor.
No começo, a numeração valia só para a Semana Santa. Era a semana em que absolutamente tudo parava, então os sete dias eram feriados de verdade e os sete mereciam o rótulo de feria. O que aconteceu num canto do noroeste ibérico foi esticar o rótulo para o ano inteiro.
O nome que a tradição prende a essa esticada é o de Martinho de Braga, bispo do século VI. Nascido na Panônia, no leste da Europa, ele foi parar na Galécia, a região que hoje se reparte entre a Galiza e o norte de Portugal, e virou bispo de Dume e depois arcebispo de Braga.
Ele escreveu um tratado curto, De correctione rusticorum, para instruir os padres sobre os hábitos pagãos que a gente do campo se recusava a largar. Num dos trechos reclama do calendário: chamar os dias de Júpiter, Mercúrio, Marte e Vênus era homenagear todo dia divindades sem templo de pé.
A alternativa que ele defendeu já existia, pronta, no latim das missas. Bastava tirá-la do altar e colocá-la na rua. E, por um acaso de geografia, o dialeto falado naquele exato canto da Galécia era o galego-português, avô da língua que desembarcaria no Brasil mil anos depois.
|
Nenhuma reforma de calendário sobreviveu tão bem escondida quanto essa: o falante do português desmonta o panteão romano cinco vezes por semana e acha que está apenas informando que dia é hoje.
|
II
A viagem
O resultado dá para conferir numa tabela mental rápida. Onde o espanhol diz martes e o francês diz mardi, os dois carregando Marte, o português diz terça-feira. Onde o inglês diz Wednesday, o dia de Wotan, e o francês diz mercredi, o dia de Mercúrio, o português diz quarta-feira.
Nem tudo caiu. Sábado e domingo escaparam da numeração porque já eram judeus e cristãos de nascença, e não sobrava deus romano para expulsar de dentro deles. O espanhol e o italiano pararam justamente aí: trocaram o dia do Sol pelo dia do Senhor, o dia de Saturno pelo sábado, e deixaram os outros cinco em paz.
O português foi o único que terminou o serviço. O galego acompanhou por séculos, e a forma numerada aparece nos documentos medievais da região, mas a língua acabou reabsorvendo luns, martes e mércores por pressão do castelhano vizinho.
Fora do latim existe companhia. O grego moderno conta os dias quase do mesmo jeito, com Δευτέρα na segunda, Τρίτη na terça e Τετάρτη na quarta. O árabe faz igual. São todos calendários que passaram pela mesma lógica religiosa de contar a partir de um dia de guarda.
Falta explicar como o dia santo virou barraca, e o caminho é curto e puramente logístico. O dia em que ninguém trabalhava era o único em que todo mundo estava livre, e o lugar onde todo mundo se juntava era o adro da igreja. Onde há multidão parada, aparece quem tem o que vender.
Os mercados medievais nasceram encostados na missa. O camponês descia da serra para cumprir a obrigação religiosa e aproveitava a viagem para trocar ovo, tecido e ferramenta na praça da frente. O nome do dia grudou no evento, e feria passou a significar o mercado que acontecia dentro dele.
A mudança não foi só portuguesa. O espanhol tem feria, o italiano tem fiera, o francês tem foire e o inglês tem fair, todos vindos de feriae. O fair de mercado, aliás, não tem parentesco com o fair de justo ou bonito, que é palavra germânica: dois sósias que se cruzaram por acaso na mesma grafia.
O alemão fez o mesmo percurso por outro atalho. Messe quer dizer feira de negócios e quer dizer missa, porque vem de missa, a fórmula latina que encerrava o ofício. Duas famílias de línguas olharam para a mesma cena, a igreja cheia e as bancas na porta, e batizaram o comércio com o nome do culto.
Em Portugal, os reis passaram a conceder cartas de feira franca, que isentavam o mercado de imposto e atraíam vendedor de longe. Cidades inteiras nasceram desse alvará e ficaram com o nome, como Santa Maria da Feira. No Brasil o modelo virou feira livre, e Feira de Santana cresceu de uma parada de tropeiros.
III
O que fica
Feira guarda hoje três sentidos que ninguém percebe estarem no mesmo saco. É o sufixo dos dias úteis, é o mercado de rua onde se compra tomate, e é o evento profissional gigante onde empresa monta estande. Os três descendem do mesmo dia em que trabalhar era proibido.
A ironia se fecha sozinha. Feria era o dia de não produzir. Virou o nome dos cinco dias em que o brasileiro mais produz, de segunda a sexta, e virou também o nome do lugar onde mais se compra e se vende na cidade. O descanso acabou batizando o trabalho.
A conta esquisita da semana também tem explicação agora. Segunda-feira é segunda porque o domingo é primeiro, e a criança que pergunta por que não existe primeira-feira está fazendo a pergunta certa: existia, era o domingo, e ele ganhou nome próprio antes que a numeração pegasse na boca do povo.
Vale reparar no que a reforma não conseguiu apagar. Os meses continuam romanos inteiros: janeiro é de Jano, março é de Marte, junho é de Juno, julho leva o nome de Júlio César e agosto o de Augusto. Martinho de Braga mexeu na semana e não encostou no ano, e ninguém depois dele teve fôlego para tentar.
O mesmo aconteceu com os planetas e com boa parte do vocabulário do céu. A língua aceita apagar o deus quando a palavra é dita mil vezes por semana e a troca cabe num sermão de domingo. Quando a palavra é técnica, rara ou de gente instruída, o deus fica exatamente onde estava.
Da próxima vez que alguém marcar alguma coisa para quinta-feira, ou pedir para você passar na feira e trazer tomate, repare no que está sendo dito. As duas frases usam a mesma palavra, e a palavra significa dia de guarda, dia em que trabalhar era pecado. Sobrou o nome, e o nome só aparece quando tem serviço a fazer.
Toda palavra é um fóssil.
|