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Pedir entusiasmo numa reunião de equipe é, ao pé da letra, pedir possessão divina. Entheos é ter um deus dentro, no comando. O grego levava a palavra bem mais a sério que nós.
Hoje dizemos que alguém tem entusiasmo quando está animado, motivado, cheio de energia para uma tarefa. É uma palavra corporativa, de coach de vendas, de discurso de formatura.
Mas o grego original não falava em energia, falava em possessão. Enthousiasmos significava que um deus havia entrado em você e tomado o controle. O entusiasmado não era quem escolhia estar animado. Era quem havia sido escolhido pelo divino.
I
A raiz
Theos (θεός) é deus em grego, o mesmo radical de teologia, ateísmo, monoteísmo, anfiteatro (não, esse é outro theatron). Com a preposição en- (dentro de, em), formou-se entheos (ἔνθεος): "com deus dentro", "que tem um deus em seu interior". O adjetivo entheos descrevia um estado específico da religiosidade grega: a possessão ou inspiração divina.
Enthousiazein (ἐνθουσιάζειν) era o verbo correspondente, "ser possuído por um deus", "estar em estado de enthousiasmos". O substantivo enthousiasmos nomeava o estado em si.
Nas práticas religiosas gregas, especialmente no culto dionisíaco e no culto de Apolo em Delfos, esse estado era real e esperado: a Pítia, sacerdotisa de Apolo, era possuída pelo deus para profetizar; as Mênades, seguidoras de Dioniso, atingiam o enthousiasmos através da dança, do vinho e da música até o transe.
A noção de que a criação artística envolvia possessão divina era central na estética grega. Platão, no Íon e no Fedro, descreve o poeta como um instrumento que o deus usa, não um artesão racional que fabrica com técnica, mas um canal pelo qual a divindade fala. O poeta em estado de enthousiasmos não sabe bem o que diz. É o deus que sabe.
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"O poeta é coisa leve, alada, sagrada, e não é capaz de compor antes de estar inspirado pelo deus e fora de si, com a razão ausente: enquanto tiver esta faculdade, nenhum homem é capaz de fazer poesia ou proferir oráculos." Platão, Íon, 534b, c. 390 a.C.
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II
A viagem
O conceito sobreviveu nas tradições religiosas que sucederam o paganismo grego. Na tradição judaica e cristã, a ruah (vento/espírito) de Deus que inspira os profetas é funcionalmente equivalente: o profeta fala porque foi tomado pelo espírito, não por iniciativa própria. O Pentecostes cristão, com as línguas de fogo e o dom de falar em línguas, é uma forma de enthousiasmos na linguagem cristã primitiva.
O latim eclesiástico adotou enthusiasmus com certa ambivalência. A possessão divina era reconhecida como fenômeno genuíno quando atribuída ao Espírito Santo, mas suspeita quando invocada por grupos considerados heréticos. Vários movimentos entusiastas medievais, os montanistas, os fraticelli, os espirituais franciscanos, reivindicavam acesso direto à inspiração divina, sem mediação eclesiástica. A Igreja desconfiava do entusiasmo não institucionalizado.
A palavra entrou no vocabulário das línguas modernas europeias via latim erudito no século XVI. Em inglês e francês, enthusiasm mantinha até o século XVIII a conotação religiosa e, com frequência, pejorativa, fanático, exaltado, irracional.
John Locke, em An Essay Concerning Human Understanding (1689), dedica um capítulo inteiro a criticar o enthusiasm como fonte de erros: seria a tendência de confundir impulso interior com revelação divina, sem evidência racional.
O Iluminismo, portanto, combateu o entusiasmo como inimigo da razão. Mas o Romantismo, um século depois, o reivindicou como virtude: a intensidade emocional, o arrebatamento criativo, a paixão que move o artista e o revolucionário. Schiller, Goethe e os românticos alemães reabilitaram a palavra com novos significados.
No uso moderno, o percurso secularizou completamente o termo. O deus saiu da equação. O que ficou foi a qualidade psicológica, energia, paixão, engajamento, que antes era atribuída à possessão divina. Ninguém que diz "ela tem muito entusiasmo pelo trabalho" está pensando em deuses.
Mas a palavra ainda guarda, na sua etimologia, a hipótese de que esse nível de intensidade vem de algum lugar que não é completamente nosso.
III
O que fica
A etimologia de entusiasmo é um convite para uma pergunta que nunca foi completamente respondida: de onde vem a intensidade criativa extraordinária? Os gregos tinham uma resposta: de um deus. O Iluminismo tinha outra: da razão disciplinada. Os psicólogos modernos têm uma terceira: do estado de flow, da neurologia da motivação intrínseca, da dopamina e dos circuitos de recompensa.
Mas o grego nomeou algo real que todas essas explicações tentam capturar: há momentos em que a energia disponível para uma tarefa excede o que o esforço consciente explica. O atleta que entra em zona, o músico que perde a noção do tempo, o escritor para quem as frases aparecem antes de serem formuladas, todos eles estão, em algum sentido, fora de si. Enthousiasmos.
A palavra sobreviveu porque o fenômeno que ela descreveu não mudou. Mudamos a explicação, o deus virou neurociência. Mas o estado continua sendo reconhecível, inconfundível, e, para quem o experimenta, ainda parece vir de fora.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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