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Você diz "que desastre" e pensa que tá falando de uma catástrofe. Não está. Tá falando de astrologia.
A palavra carrega uma cosmovisão inteira que ninguém mais ouve. Mas continua usando.
I
A raiz
Astrum é a palavra latina pra estrela. Vem do grego astron, que significa exatamente a mesma coisa. Os romanos pegaram emprestado e mantiveram o brilho. Toda vez que você ouve "astronomia", "astrólogo", "asterisco" ou "astronauta", está ouvindo a mesma raiz, três mil anos depois.
Dis- é o prefixo de separação, de algo que vai pra fora, que se desencaixa, que dá errado. O mesmo prefixo aparece em "dispersar", "dissolver", "discordar", "distanciar". Junte os dois e você tem: estrela fora do lugar, estrela errada, posição astral nefasta.
Os antigos acreditavam que a conjunção dos planetas no momento do nascimento decidia o destino de uma pessoa. Quando alguma coisa dava errado, uma doença, uma derrota, um amor frustrado, não era acaso. Era a estrela. O céu tinha mexido as peças.
Um "desastre" era literalmente isso: quando o astrum estava torto.
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"Two star-cross'd lovers take their life." (Dois amantes contra-estrelados tiram a própria vida.) Shakespeare, Romeu e Julieta.
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II
A viagem
A história começa na Babilônia, três mil anos antes de Cristo. Sacerdotes em torres de tijolo cru observavam o céu noite após noite, anotando posições de planetas em tabuinhas de argila. Acreditavam que cada movimento celeste era um sinal dos deuses, um aviso, uma promessa. Não era superstição vulgar. Era ciência de Estado: imperadores consultavam astrólogos antes de declarar guerra.
Os gregos absorveram a prática quando Alexandre conquistou a Pérsia. Cláudio Ptolomeu, o mesmo astrônomo que mapeou o céu visível, escreveu no século II o Tetrabiblos, manual de astrologia que viraria bíblia da prática por 1.400 anos. Pra Ptolomeu, prever o futuro pelos astros era tão sério quanto prever um eclipse.
Roma adorou. Imperadores como Augusto e Tibério tinham astrólogos pessoais. Cícero reclamava da prática nos seus escritos. Quando a república virou império, ler estrelas virou política de palácio. É nessa Roma que a palavra astrum se cola ao prefixo dis- pela primeira vez, descrevendo destinos atravessados pelo céu.
A Idade Média herdou a obsessão. Mesmo com a Igreja Católica condenando oficialmente a astrologia, papas mantinham astrólogos na corte. Tomás de Aquino dedicou páginas tentando conciliar livre-arbítrio cristão com influência astral. Dante, na Divina Comédia, descreve o paraíso como esferas planetárias. A palavra disastro aparece no italiano do Trecento, já carregando os dois sentidos: má sorte celeste e tragédia concreta.
Shakespeare, três séculos depois, usa o termo em Macbeth, em Júlio César, em Rei Lear, sempre com o eco astrológico. Quando ele escreve "star-cross'd lovers" em Romeu e Julieta, não é metáfora poética inventada por ele. É a teoria cosmológica do tempo dele. Os amantes estão amaldiçoados porque os astros se cruzaram errado no momento em que se conheceram.
Aí vem o iluminismo. Galileu aponta a luneta pra Júpiter e descobre que ele tem luas próprias. Kepler (que era astrólogo de profissão) calcula órbitas elípticas. Newton derruba tudo com a lei da gravitação universal. As estrelas viram bolas de gás incandescente, governadas por matemática, indiferentes aos amores e às doenças humanas. A astrologia perde a chancela científica.
E mesmo assim ninguém troca a palavra. Désastre no francês de Voltaire descrevendo o terremoto de Lisboa em 1755. Disaster no inglês vitoriano. Desastre no português de qualquer dia. A palavra resiste. Atravessa séculos, idiomas, revoluções científicas, perde a alma astrológica, ganha foro de catástrofe genérica, e segue na boca de todo mundo.
A cosmovisão morre. O som sobrevive.
III
O que fica
Toda vez que alguém diz "que desastre", está acionando, sem saber, um modelo de mundo de três mil anos. Babilônios olhando o céu nas torres, romanos lendo horóscopos no fórum, Tomás de Aquino escrevendo nos claustros, Shakespeare ditando peças no Globe Theatre. Tudo embalado numa palavra que você usa pra falar do almoço queimado.
A palavra ficou. O sentido literal evaporou. Mas o som carrega a história inteira como um fóssil, intacto e invisível, dentro da boca de quem fala.
A linguagem é um cemitério onde os mortos continuam falando.
Toda palavra é um fóssil.
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