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Você está numa fila, e a pessoa do seu lado quer avisar de alguma coisa sem falar em voz alta. O dedo encosta no seu braço, uma vez, rápido, e recolhe. Ninguém precisa explicar o que aconteceu ali. Você foi cutucado, e entendeu na hora.
O verbo que descreve esse gesto não veio de Lisboa. Chegou pela boca dos povos que já estavam na costa quando as caravelas encostaram, atravessou uma lei feita para apagar a língua inteira de onde ele saiu e continua no seu vocabulário de todo dia, sem sotaque nenhum.
I
A raiz
Cutucar vem do tupi kutuk, que queria dizer espetar, furar, atingir alguma coisa com a ponta. Não era gesto delicado. O verbo servia para a lança que entra no peixe, para o espinho que fura o pé e para o ferrão que atravessa a pele.
A raiz aparece com a mesma cara nas línguas irmãs. No guarani, kutu é furar, perfurar. No nheengatu, a língua geral que desceu o Amazonas, kutuka guardou o mesmo sentido. Os religiosos que catalogaram esse vocabulário registraram a tradução literal: punçar, ferir com ponta.
Anchieta publicou a primeira gramática da língua brasílica em 1595, e Luís Figueira veio atrás em 1621. O objetivo era prático, porque padre que não falasse tupi não convertia ninguém. Sem querer, os dois montaram o arquivo que hoje permite rastrear de onde saiu meia dúzia de palavras do seu dia.
O caminho de kutuk até o cutucar de hoje é uma perda de força, não de sentido. A ponta continua lá, o dedo continua encostando, só que o gesto parou de furar. Sobrou o toque curto e seco, feito para chamar atenção sem dizer nada.
O detalhe que faz esse caso ser estranho é gramatical. O português brasileiro herdou milhares de palavras tupi, e quase todas são substantivos: bicho, planta, comida, rio, cidade. Capivara, mandioca, pipoca, Ipanema, Itaquera. Verbo é raríssimo.
Substantivo se pega emprestado sem esforço, porque basta apontar para a coisa e repetir o nome. Verbo exige mais. Precisa entrar na conjugação, aceitar tempo, pessoa e modo, virar cutuco, cutucava, cutucaria. Só atravessa quem foi usado dentro de casa, por gente que falava as duas línguas.
Os poucos que atravessaram vieram pelo mesmo portão. Sapecar veio de sapek, chamuscar. Peteca veio de petek, bater com a palma da mão. Todos entraram pela terminação em ar, a primeira conjugação, que é a porta larga por onde o português aceita estrangeiro.
Existe também uma explicação falsa que circula com naturalidade: a de que cutucar viria de cotovelo, por causa da cutucada de cotovelo que todo mundo já levou. A semelhança sonora é acidental. Cotovelo vem do latim cubitus, e não tem parentesco algum com a palavra que veio da costa.
A forma da palavra nunca se fixou de vez. Catucar, cotucar e cutucar convivem há séculos, e os dicionários de brasileirismos do século XIX já registravam as variantes lado a lado. Catucar domina boa parte do Nordeste, cutucar pegou no Sudeste, e nenhuma das duas venceu a outra.
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Nenhum decreto derrubou o verbo. Ele sobreviveu porque descrevia um gesto que o português, com todo o dicionário à disposição, nunca soube nomear com uma palavra só.
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II
A viagem
Para entender como um verbo tupi virou hábito nacional, é preciso olhar para uma língua que quase ninguém aprende na escola. Nos dois primeiros séculos de colônia, o idioma corrente no Brasil não era o português. Era a língua geral, um tupi ajustado pelos jesuítas e falado por índios, mestiços e brancos.
Em São Paulo, a versão paulista dessa língua era o que se ouvia na rua, na roça e dentro de casa. Os bandeirantes saíam para o sertão falando ela. Há registro de bandeirante famoso que, no fim do século XVII, precisou de intérprete para se entender em português com uma autoridade da Igreja.
As bandeiras espalharam o vocabulário por onde passaram. Nomes de rio, de morro, de bicho e de planta ficaram cravados no mapa do Centro-Oeste e do Sul. Junto com os nomes viajaram os poucos verbos que a boca dos falantes já tratava como se fossem portugueses de nascença.
A virada veio por decreto. Em 1757, o Diretório dos Índios, obra do Marquês de Pombal, proibiu o uso da língua geral e tornou o português obrigatório. No ano seguinte a regra valia para a colônia inteira, e em 1759 os jesuítas, que sustentavam o ensino do tupi, foram expulsos.
Foi a maior operação de troca de idioma da história do país, e funcionou. Em duas ou três gerações a língua geral encolheu até virar assunto de canto de mapa. No alto rio Negro ela resistiu como nheengatu, e hoje é língua cooficial no município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.
O que o decreto não conseguiu foi desinstalar as palavras que já estavam dentro do português falado. Ninguém sente que está falando tupi ao dizer que vai cutucar alguém. A proibição passou por cima do verbo sem enxergar ele ali, disfarçado de português desde sempre.
A concorrência portuguesa também nunca deu conta do serviço. Espetar leva a ponta para dentro. Furar termina em buraco. Picar dói. Tocar é vago demais. Cutucar é a única que diz toque breve, com a ponta, para chamar atenção, sem machucar e sem precisar falar.
Quando uma palavra ocupa um lugar que nenhuma outra ocupa, ela começa a gerar frase feita. Cutucar a onça com vara curta é provocar quem pode revidar com força. Cutucar a ferida é insistir onde dói. Cutucão virou substantivo, e cutucada virou a medida exata de um aviso mudo.
Aí chegou o botão. Em 2004, o Facebook criou o poke, um recurso que a própria empresa nunca se deu ao trabalho de explicar: você apertava, e a outra pessoa recebia um aviso de que você existia. Quando a rede ganhou versão em português, no fim daquela década, o poke virou cutucar.
III
O que fica
A tradução acertou por precisão e por acaso ao mesmo tempo. Poke vem de uma raiz germânica que quer dizer empurrar de leve com a ponta. Duas línguas nascidas em lados opostos do planeta chegaram ao mesmo gesto, e o botão brasileiro ficou com a palavra da costa de cá.
Nenhum outro verbo daria conta do que a rede queria dizer. Cutucar já carregava, pronta, a ideia de contato mínimo, sem assunto, feito só para sinalizar presença. O brasileiro entendeu o botão na hora, sem manual, sem tutorial e sem nunca perguntar o que aquilo servia para fazer.
O recurso envelheceu e sumiu do canto visível da rede, mas o verbo continuou firme. Hoje ele descreve a mensagem de cobrança educada, o toque no ombro de quem está distraído e a provocação leve em qualquer conversa, com ou sem tela no meio do caminho.
Vale reparar no portão que a palavra usou para entrar. A terminação em ar da primeira conjugação é a mesma que aceitou deletar, postar, escanear e printar quatro séculos depois. A língua mantém uma porta só para o estrangeiro que precisa ser conjugado, e essa porta nunca fechou.
Quando você diz que vai cutucar alguém, está usando um verbo que já foi falado por gente que nunca ouviu falar em Portugal, sobreviveu a uma lei escrita para apagar a língua de onde ele saiu, atravessou o país na boca dos bandeirantes e ainda serviu para batizar um botão de rede social.
A ponta continua ali, escondida no meio da palavra. Toda vez que alguém encosta o dedo no seu braço para avisar de alguma coisa, o gesto repetido é o de furar com a ponta, só que sem furar nada. Sobrou o toque, e o toque bastou para a palavra durar quatrocentos anos.
Toda palavra é um fóssil.
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