A Origem das Palavras #027 · Cretino
A Origem das Palavras

EDIÇÃO Nº 027

A PALAVRA DE HOJE

Cretino

/kɾe.ˈtʃi.nu/

Do latim. Christianus (cristão) → crétin

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A LINHA DO TEMPO

suíça → cristão → inocente → idiota

Se alguém te chamar de cretino, saiba: tecnicamente, está te chamando de cristão. A palavra fez uma das jornadas semânticas mais bizarras da história da língua.

I

A raiz

Crétin vem do franco-provençal crestin, que vem do latim christianus (cristão). A evolução fonética é clara: christianus → crestianu → crestin → crétin. O som mudou. O significado virou do avesso.

Nos Alpes suíços e franceses, crestin era usado como eufemismo compassivo para pessoas com deficiência intelectual severa. Chamar alguém de "cristão" era lembrar que, apesar da condição, aquela pessoa ainda era um ser humano, uma criatura de Deus, merecedora de compaixão. Era ato de caridade, não insulto.

"Crétin: nome dado nos Alpes aos infelizes afetados por uma espécie de estupidez ligada ao bócio." Encyclopédie de Diderot e d'Alembert, 1754.

II

A viagem

Nos vales alpinos da Suíça, da Sabóia e do Piemonte, existia uma condição médica comum: o cretinismo. Causado pela deficiência severa de iodo na dieta, o cretinismo provocava bócio (inchaço da tireoide), retardo no crescimento e comprometimento intelectual grave.

A água dos Alpes é pobre em iodo. O solo também. Populações que viviam em vales isolados, comendo apenas o que o terreno local produzia, desenvolviam deficiência crônica de iodo. Os efeitos eram devastadores em crianças: ossos que não cresciam, cérebros que não se desenvolviam, tireoides que inchavam até deformar o pescoço.

A condição era tão comum em certas aldeias suíças que praticamente toda família tinha um membro afetado. Viajantes que cruzavam os Alpes no século XVIII ficavam chocados com a concentração de pessoas com bócio e deficiência intelectual. Os relatos são abundantes na literatura de viagem da época.

Os locais chamavam esses indivíduos de crétin, o "cristãozinho". O diminutivo carregava piedade: aquela pessoa não tinha culpa, era criatura de Deus, merecia cuidado. O eufemismo era genuíno. Não começou como insulto.

A Encyclopédie de Diderot e d'Alembert (1754) registrou crétin como termo médico-geográfico, associando a condição aos vales alpinos. No século XIX, médicos formalizaram "cretinismo" como diagnóstico clínico. A causa (deficiência de iodo) só foi comprovada no início do século XX. A solução (sal iodado) começou a ser implementada na Suíça em 1922. O cretinismo desapareceu nos países que adotaram a iodação do sal.

A palavra, porém, não desapareceu. Fez a jornada de eufemismo compassivo a insulto genérico. No francês coloquial, crétin virou xingamento: idiota, imbecil, estúpido. O português importou cretino com o mesmo sentido pejorativo. Ninguém que chama outro de "cretino" pensa em cristãos alpinos com deficiência de iodo.

A mesma trajetória aconteceu com outras palavras médicas que viraram insulto: "idiota" (do grego idiotes, pessoa privada, leiga), "imbecil" (do latim imbecillis, fraco), "débil" (do latim debilis, sem força). Todas começaram como descrições clínicas e terminaram como armas verbais.

III

O que fica

"Cretino" é uma palavra que fez o caminho da compaixão ao desprezo. Começou como tentativa de humanizar (esse infeliz é cristão, é gente) e terminou como tentativa de desumanizar (esse cara é um cretino, é menos que gente).

A mesma sociedade que inventou o eufemismo acabou transformando-o no seu oposto. É um padrão que se repete na história das línguas: toda palavra gentil que nomeia uma condição dolorosa acaba sendo contaminada pelo estigma da condição. E então precisa ser substituída por outra palavra gentil, que também será contaminada.

A compaixão se gasta. A língua registra o desgaste.

Toda palavra é um fóssil.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: "Cretino" vem do latim christianus (cristão) e começou como eufemismo compassivo nos Alpes para pessoas com deficiência intelectual.

VVerdadeiro FFalso

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