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A LINHA DO TEMPO latim popular → idade média → uso militar → uso comercial → linguagem cotidiana |
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A empresa onde você trabalha é uma companhia. As pessoas com quem você janta fazem companhia. A presença de alguém ao seu lado é uma companhia. As três coisas têm o mesmo nome porque, em latim popular, ter companhia significava uma coisa só: dividir pão. Companhia é uma das palavras mais simples e mais bonitas do português. Diz que estar junto, no fundo, é compartilhar comida. I A raizCum panis é construção latina coloquial, não clássica. Cum é a preposição que significa "com". Panis é a palavra padrão para pão. Juntas, formaram inicialmente o particípio cumpanio ou companio, depois o substantivo companio, que significava literalmente "aquele que come pão com outro". A palavra não aparece em Cícero, Virgílio ou Horácio. É latim falado, latim do povo, latim do soldado e do mercador. Surge nos textos cristãos do final do Império, especialmente em vidas de santos e crônicas monásticas. São Bento de Núrsia usa o termo no século VI. Depois aparece em Gregório de Tours, no século VI também, e em vários cronistas merovíngios. O contexto era específico: viajantes, peregrinos, monges, soldados. Pessoas que andavam juntas pelos caminhos perigosos da Europa medieval primitiva. Essas pessoas dividiam o pão da viagem, nas paradas, nos albergues, nos acampamentos. Quem dividia o pão com você era seu companio. Aquele em quem você confiava o suficiente para sentar à mesma mesa e quebrar o mesmo pão. A noção de companhia nasceu na precariedade da estrada.
II A viagemA palavra se espalhou pelo latim vulgar nos séculos VI e VII, atravessando todas as línguas românicas. Compagnie em francês antigo, compañía em castelhano, compagnia em italiano, companhia em português, companion em inglês (via francês normando após 1066). Em todos esses idiomas, o sentido literal de "comer pão com" rapidamente se metaforizou para "estar com", "ser amigo", "fazer parte do mesmo grupo". A Idade Média militarizou a palavra. Compagnie em francês medieval virou termo técnico para unidade militar: um grupo de soldados que viajava junto, comia junto, lutava junto. Os exércitos feudais se organizavam em companhias. Os mercenários do final da Idade Média formavam "companhias livres" para se vender aos nobres em guerra. As Companhias Brancas e Companhias Pretas dos séculos XIV e XV eram bandos de combatentes profissionais, organizados, hierárquicos, móveis. A palavra entrou no Renascimento com camada nova: comércio. As primeiras grandes empresas comerciais europeias, no fim da Idade Média e início da Era Moderna, se organizaram como "companhias". Sociedades de mercadores que dividiam riscos, capital e lucros. A Liga Hanseática, no Báltico do século XIV, era essencialmente uma rede de companhias. Genoveses e venezianos faziam companhias de comércio mediterrâneo. O salto definitivo veio com a era das navegações. A Companhia Holandesa das Índias Orientais, fundada em 1602, foi a primeira empresa multinacional moderna, primeira empresa de capital aberto, primeira corporação transcontinental. Logo seguiram a Companhia Britânica das Índias Orientais, a Companhia Real Africana, a Companhia da Baía de Hudson. Cada império colonial criou suas companhias. Em todos esses casos, a palavra original sobrevivia. Uma companhia comercial era, conceitualmente, ainda um grupo de pessoas que dividia pão. Sócios, acionistas, funcionários, todos faziam parte da mesma mesa metafórica. A linguagem manteve a metáfora viva mesmo quando a escala das operações se tornou global. O português brasileiro adotou companhia com todos esses sentidos. Companhia como empresa (Companhia Vale do Rio Doce, Companhia Brasileira de Distribuição). Companhia como unidade militar (a 5ª Companhia do regimento). Companhia como presença social (estou com companhia hoje à noite). Companhia como grupo artístico (Companhia de Dança, Companhia Teatral). Cada uso ativa a metáfora original. Quando alguém diz "estou em boa companhia", está dizendo, sem saber, "estou com pessoas com quem dividiria pão". Quando alguém diz "fundamos uma companhia", está dizendo "criamos um grupo que come junto, mesmo que metaforicamente". O latim popular sobreviveu intacto, transparente, debaixo do verniz corporativo moderno. A palavra é também irmã etimológica de outras palavras importantes do português. Acompanhar significa literalmente "andar com quem divide pão". Companheiro mantém ainda mais clara a memória: companheiro é literalmente quem come com você. Compor tem outra origem, mas se confunde no uso popular. A família lexical de cum panis permeia o português falado. Há nuances brasileiras interessantes. No português falado, "fazer companhia" carrega afetividade que o sentido empresarial perdeu. "Vou fazer companhia" significa estar presente para alguém, oferecer presença solidária, ficar do lado. A frase recupera, instintivamente, o sentido medieval do peregrino na estrada: estar com o outro nos caminhos difíceis. III O que ficaCompanhia é uma das palavras mais bonitas do dicionário pelo que revela sobre a antropologia da convivência. Antes de existirem empresas, contratos, sociedades comerciais, redes sociais e tudo mais que define hoje a vida em comum, existia o gesto simples de dividir o pão. E esse gesto bastava para fundar uma palavra que, mil e quinhentos anos depois, ainda cobre todas as formas de estar junto. A etimologia ensina hierarquia importante. O que fundou a convivência humana não foi o trabalho, não foi a religião, não foi a propriedade, não foi a guerra. Foi a comida partilhada. Os monges medievais que cunharam a palavra entendiam isso. Os mercadores renascentistas que criaram as primeiras corporações entendiam isso. A linguagem registrou o entendimento. E quando hoje alguém diz que sente falta da própria companhia ao final de um dia longo, está dizendo que sente falta de alguém com quem dividir pão. A solidão é, etimologicamente, ausência de quem coma com você. A linguagem é mais antropológica do que pretende. Sabe coisas sobre o que faz a vida humana suportável, e usa palavras pequenas para guardar segredos antigos. Companhia é um deles. Toda palavra é um fóssil. |
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O RITUAL DIÁRIO Todo dia, às 12:12. Uma palavra. Dois minutos. A Origem das Palavras. Uma palavra. Uma história. |