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Todo dia de manhã, em milhões de casas ao redor do mundo, alguém abre uma caixa colorida com personagens animados, tigres cor-de-laranja e slogans sobre energia matinal, e despeja no leite o que os romanos chamavam de presente de uma deusa.
A palavra cereal é hoje tão industrial, tão associada a embalagens plásticas e teores de açúcar, que é difícil perceber o que ela guarda: o nome de Ceres, a divindade romana das colheitas, sem quem Roma acreditava que o mundo inteiro morreria de fome.
I
A raiz
Ceres era uma das deusas mais antigas e mais veneradas do panteão romano. Filha de Saturno e Ops, irmã de Júpiter, mãe de Prosérpina, ela governava a fertilidade da terra, o crescimento dos grãos, a abundância das colheitas.
O culto de Ceres em Roma era antigo e popular, não aristocrático como o de Júpiter, mas profundamente plebeio.
O Templo de Ceres, Líber e Líbera, construído no monte Aventino por volta de 493 a.C., era o templo da plebe romana, o lugar onde os direitos das classes mais baixas eram registrados e protegidos. Ceres representava não apenas o alimento físico, mas a sustentação da vida social.
As Cerealia eram festas celebradas em abril em honra de Ceres, com corridas no Circo Máximo e jogos. Em uma prática peculiar, raposas eram soltas com tochas amarradas ao rabo durante a festa, uma tradição cujo significado exato é ainda debatido pelos historiosos, mas que parece relacionada à proteção das colheitas contra pragas e secas.
O adjetivo latino cerealis significava simplesmente "relativo a Ceres", "pertencente a Ceres". A expressão frumenta cerealia, os grãos de Ceres, era a forma natural de nomear o trigo, a cevada, o centeio e o espelta, as culturas que a deusa protegia. Era como se os grãos fossem propriedade divina cedida temporariamente aos mortais.
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"Quando Ceres descobriu a perda de sua filha, vagou pela terra com tochas acesas e sem parar para descansar. Enquanto chorava, as colheitas definharam e a terra tornou-se estéril." Ovídio, Fasti, livro IV, c. 8 d.C.
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II
A viagem
O substantivo cereale, o que pertence a Ceres, o grão sagrado, consolidou-se no latim medieval e eclesiástico. À medida que a memória religiosa de Ceres foi esmaecendo com a cristianização do Império Romano, o nome da deusa sobreviveu apenas na palavra que designava o produto que ela governava. Os grãos continuaram sendo cerealia mesmo quando ninguém mais celebrava as Cerealia de abril.
Em francês, céréale aparece como substantivo a partir do século XVIII, quando a botânica e a agricultura estavam sendo sistematizadas. Em inglês, cereal surge como adjetivo no início do século XIX e como substantivo a partir da segunda metade do mesmo século.
A Revolução Industrial e o crescimento das cidades criaram a demanda por alimentos processados de grãos, e a palavra passou a nomear tanto as plantas cultivadas quanto os produtos delas derivados.
O salto para a caixa de café da manhã aconteceu nos Estados Unidos, na segunda metade do século XIX, num contexto improvável: o movimento de reforma alimentar e saúde.
John Harvey Kellogg, médico adventista que dirigia um sanatório em Battle Creek, Michigan, desenvolveu flocos de milho processados como alimento saudável e de fácil digestão para seus pacientes. Em 1898, junto com seu irmão Will, lançou o produto comercialmente.
A palavra cereal, que já designava os grãos em geral, passou a nomear também os produtos processados para café da manhã, breakfast cereal em inglês, cereal matinal em português.
A deusa Ceres ganhou um sobrevivente inesperado: a corporação Kellogg's vende bilhões de caixas por ano com a palavra que os romanos reservavam para as oferendas à divindade das colheitas.
Há um cognato científico relevante: Ceres é também o nome do maior objeto do Cinturão de Asteroides, classificado atualmente como planeta anão. Descoberto em 1801 pelo astrônomo Giuseppe Piazzi, foi batizado com o nome da deusa romana, uma prática comum na nomenclatura astronômica da época. Ceres é o menor planeta anão reconhecido pela União Astronômica Internacional.
III
O que fica
A etimologia de cereal revela algo sobre como as sociedades antigas estruturavam a realidade. Os romanos não simplesmente cultivavam trigo: eles participavam de uma relação com uma divindade que presidia o processo de plantar, crescer e colher.
Nomear o grão pelo nome da deusa era uma forma de manutenção constante da consciência dessa relação. O alimento era sagrado porque dependia de forças além do controle humano, o clima, a chuva, a fertilidade do solo.
A industrialização dos cereais no século XIX fez o caminho inverso: arrancou o nome divino e o colou numa embalagem de papelão. O paradoxo é que a palavra sobreviveu intacta, carregando sua teologia embutida, mesmo enquanto o produto se transformava em commodity global produzida em escala.
Toda manhã, ao abrir a caixa, servimos involuntariamente à deusa mais antiga de Roma.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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