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Catapora vem do tupi tatá'pora, o fogo que salta. O povo que recebeu a doença dos colonizadores foi quem deu a ela o nome mais preciso. A língua registrou a história melhor que os arquivos.
Quando os portugueses chegaram ao Brasil, trouxeram doenças para as quais as populações nativas não tinham nem imunidade nem nome.
Mas os povos tupis, observadores atentos do mundo natural, nomearam o que viam: as pústulas vermelhas da varicela que apareciam, espalhavam-se e queimavam como brasas sobre a pele foram chamadas de tatá'pora, fogo que salta.
A palavra passou ao português como catapora e ficou para sempre, mais viva e mais precisa do que qualquer latinização médica poderia ser.
I
A raiz
Em tupi, tatá significa fogo. A palavra é fundamental no vocabulário tupi e aparece em muitos compostos: tatajuba (fogo amarelo, o ipê), tataíra (formiga de fogo), Curitiba (do tupi kurytiba ou kur-y-tyba, pinheiros em quantidade, com variante que envolve tatá). O fogo era referência central na vida dos povos tupis.
Pora (ou 'pora, com oclusiva glotal) significa "o que salta", "o que pula", "faísca". A combinação tatá'pora descreve literalmente faíscas, os pontos de fogo vivo que saltam da fogueira e pousam sobre a pele ou sobre superfícies próximas, criando manchas de queimadura espalhadas.
A metáfora é de uma precisão clínica involuntária. A varicela, nome científico do vírus Varicella zoster, produz pústulas que surgem inicialmente no tronco e se espalham pelo corpo em surtos sucessivos, como faíscas que vão caindo sobre a pele em diferentes momentos. A sensação é de queimação e coceira intensa. Tatá'pora capturou tanto a aparência visual (manchas espalhadas) quanto a sensação tátil (ardência, fogo).
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"O português do Brasil recebeu do tupi uma nomenclatura médica popular surpreendentemente expressiva, onde doenças, sintomas e partes do corpo foram nomeados por metáforas sensoriais de grande precisão." Antenor Nascentes, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1932.
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II
A viagem
A adaptação fonética de tatá'pora para catapora seguiu o padrão geral de como palavras tupis entraram no português colonial. O t inicial frequentemente transformava-se ou apagava-se na boca dos colonizadores; a oclusiva glotal ' do tupi desaparecia; vogais se ajustavam à fonologia portuguesa. Tatá'pora tornou-se catapora numa série de ajustes que mantiveram o ritmo e o som geral da palavra original.
É interessante notar que a medicina europeia tinha seu próprio nome para a doença: varicela, diminutivo do latim varius (manchado, variado), referindo-se às manchas que cobriam o corpo. Em Portugal, usa-se varicela ou varíola das galinhas (diferenciando da varíola humana). A medicina brasileira acadêmica usa varicela. Mas a língua falada no Brasil consagrou catapora, a palavra tupi, como o nome da doença.
Isso não é acidente. O Brasil bilíngue do período colonial (onde a língua geral tupi era tão importante quanto o português) legou ao país um vocabulário médico popular de base tupi que nenhuma campanha de latinização científica conseguiu deslocar. Catapora, sarampo (esse de origem portuguesa), escarlatina, coqueluche, cada doença infantil tem sua história lexical própria.
A palavra catapora tem também uso metafórico no português brasileiro informal. "Uma criança catapora" é uma criança irrequieta, que salta de um lado para o outro, que não para, o fogo que salta, aplicado ao comportamento. A metáfora original sobreviveu no uso figurado.
III
O que fica
Catapora é um registro. Registra que os povos tupis, ao nomearem uma doença que os colonizadores trouxeram, não buscaram traduzir termos médicos europeus: olharam para o que viam e sentiram e deram um nome próprio. Um nome de fogo.
Há algo de poético na persistência dessa palavra. A varicela como doença será, provavelmente, erradicada nas próximas décadas, a vacina já reduziu drasticamente sua incidência em países com cobertura vacinal ampla. Mas catapora ficará na língua, como ficou pipoca, como ficou jacaré, como ficou abacaxi. O tupi sobrevive nos fósseis que plantou no português, mesmo quando os falantes originais e os contextos originais desapareceram.
A língua guarda as observações dos que viram primeiro.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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