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A maior festa do planeta nasceu de uma ordem de jejum. Carnaval, no latim que a batizou, significa retirar a carne. Vale entender como uma véspera de penitência atravessou o Atlântico e virou o oposto exato do que mandava.
A palavra que hoje nomeia quatro dias de excesso, fantasia e corpo na rua nasceu como aviso de despensa. Carnem levare, no latim da Europa medieval, significava retirar a carne: era a véspera da Quaresma, o último dia em que o cristão podia comê-la antes de quarenta dias de jejum e abstinência.
Não havia nada de festivo na expressão. Era calendário litúrgico, regra de mesa, obrigação de penitente. E ainda assim, dessa ordem de renúncia saiu o nome da celebração mais desmedida que uma cultura já inventou.
I
A raiz
No latim tardio da Itália medieval, a locução carnem levare designava o momento de tirar a carne da mesa, na entrada da Quaresma. Documentos medievais registram as formas carnelevare e carnelevarium, que o italiano foi encurtando até chegar a carnevale. Do italiano, a palavra passou ao francês carnaval e, dele, ao português.
A carne, ali, era literal: a de vaca, de porco, de carneiro, banida da mesa cristã durante os quarenta dias que antecedem a Páscoa. Como a proibição começava na Quarta-feira de Cinzas, os dias anteriores viravam a última chance de comer. E a despedida, ano após ano, foi crescendo em banquete.
A etimologia popular inventou versões mais poéticas. Uma delas lê carne, vale como "adeus, carne", despedida em latim de quem abraça o jejum. Outra, hoje descartada pelos estudiosos, apontava para carrus navalis, o carro naval de antigas procissões. As duas perdem para os documentos: o que a palavra guarda é o gesto concreto de tirar a carne da mesa.
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"Carnevale: dalla locuzione carne levare, 'togliere la carne', riferito in origine al giorno precedente la quaresima, in cui cessava l'uso della carne." Vocabolario della lingua italiana Treccani, entrada "carnevale".
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II
A viagem
Foi na Itália que a véspera do jejum virou instituição. Carnevale passou a nomear o ciclo de festas que precedia a Quaresma nas cidades italianas, e nenhuma o levou tão a sério quanto Veneza, cujas máscaras e bailes atraíam viajantes de toda a Europa nos séculos XVII e XVIII.
O francês adotou carnaval no século XVI, importado do italiano. E foi pela via francesa, língua de prestígio da Europa moderna, que a palavra se espalhou pelo continente, chegando ao espanhol, ao inglês e ao português.
Portugal, porém, já tinha sua própria festa da véspera: o entrudo, do latim introitus, a entrada da Quaresma. Era brincadeira de rua áspera. Água, farinha, ovos e limões de cheiro voavam de janela em janela.
Foi o entrudo que atravessou o Atlântico com a colonização. No Brasil colonial, a festa portuguesa se instalou nas cidades, molhando e enfarinhando os passantes, para desespero das autoridades, que a proibiram repetidas vezes, sem sucesso.
No século XIX, a elite do Rio de Janeiro quis substituir o entrudo grosseiro por algo mais civilizado, à europeia. Importou dos salões de Paris e das máscaras de Veneza os bailes fechados e o nome francês: carnaval. A palavra chegou ao Brasil como projeto de refinamento.
A rua, porém, tomou o nome emprestado e fez dele outra coisa. Cordões, ranchos e blocos ocuparam o carnaval com música, percussão e corpo. Em 1928, nasceu no bairro do Estácio a primeira escola de samba, e o desfile virou a face mais visível da festa.
Hoje o carnaval brasileiro é apontado como a maior festa popular do planeta, movimentando milhões de pessoas entre Rio, Salvador, Recife, Olinda e São Paulo.
Do calendário da penitência restou a data. O carnaval continua amarrado à Quaresma, encerrando na véspera da Quarta-feira de Cinzas, e quase ninguém que samba na avenida sabe que está obedecendo, ainda, ao relógio do jejum medieval.
III
O que fica
Carnaval é um caso raro de palavra que virou o contrário de si mesma sem trocar de corpo. O nome que ordenava retirar a carne passou a nomear a festa que a celebra: a carne da mesa e a carne da pele, a comida e o corpo.
A inversão não é acidente, é a lógica interna da festa. O carnaval medieval só existia porque o jejum existia. Era a válvula antes da disciplina, o excesso autorizado porque tinha hora para acabar. A Quarta-feira de Cinzas era o fecho que dava sentido à folia.
O Brasil herdou a válvula e soltou a disciplina. A Quaresma esmaeceu como prática social, mas a festa que a antecedia cresceu até virar identidade nacional. Ficou a celebração, órfã da renúncia que a justificava.
Há algo revelador nesse destino. As palavras de proibição tendem a gerar os próprios contrários: o limite desenha exatamente aquilo que quer conter. Ao nomear o que devia sair da mesa, o latim medieval acabou batizando tudo o que voltaria, multiplicado, pela porta da festa.
Toda vez que alguém diz carnaval, pronuncia, sem saber, uma ordem de jejum da Europa medieval. A carne que devia ser retirada ficou guardada dentro da palavra. E a palavra, séculos depois, desfila.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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