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Dois bilhões de xícaras por dia. O planeta inteiro funciona movido a uma bebida que começou como lenda de cabras insones na Etiópia. E o nome dela atravessou sete línguas antes de chegar à sua cozinha.
I
A raiz
A palavra vem do árabe qahwa (قهوة). A etimologia exata é debatida, mas a teoria mais aceita liga qahwa a um significado antigo: aquilo que tira a vontade de comer, que suprime o apetite, que mantém acordado. Antes de nomear a bebida, qahwa era usada em árabe para designar um tipo de vinho. A bebida que altera o estado.
Alguns linguistas tentaram ligar a palavra a Kaffa, a região etíope onde o café cresce silvestre. A conexão é poética, mas a maioria dos arabistas considera coincidência. O caminho mais provável é interno ao árabe: qahwa como termo genérico para bebida estimulante, aplicado ao café quando ele surgiu como infusão no Iêmen do século XV.
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"O café deve ser quente como o inferno, preto como a noite e doce como o amor." Provérbio turco, sem autoria confirmada.
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II
A viagem
A planta é africana. O Coffea arabica nasceu nas terras altas da Etiópia, onde os grãos eram mastigados ou misturados com gordura animal como alimento energético. A lenda mais famosa conta que um pastor chamado Kaldi percebeu que suas cabras ficavam agitadas depois de comer as frutinhas vermelhas de certo arbusto. A história é bonita, mas provavelmente apócrifa. Aparece pela primeira vez num manuscrito do século XVII, séculos depois dos fatos.
O que se sabe com mais segurança é que monges sufis no Iêmen, por volta do século XV, começaram a preparar uma infusão com os grãos torrados para aguentar as longas sessões de oração noturna. Qahwa era o nome. A bebida se espalhou pelo mundo islâmico com velocidade impressionante. No século XVI, Meca, Medina, Cairo, Damasco e Istambul já tinham casas de café.
Em Istambul, qahwa virou kahve. Os turcos otomanos transformaram o preparo numa arte cerimonial. O café turco, fervido em cezve com açúcar e especiarias, virou protocolo diplomático. Quando embaixadores otomanos levavam café às cortes europeias, não ofereciam só uma bebida. Ofereciam uma experiência.
A Europa resistiu no começo. Padres pediram ao Papa Clemente VIII que banisse a "bebida do diabo muçulmano". Diz a tradição que o Papa experimentou, gostou e batizou o café como "bebida cristã". Do italiano caffè, a palavra se espalhou: café em francês, coffee em inglês, Kaffee em alemão, кофе em russo.
O Brasil entra na história em 1727. Francisco de Melo Palheta, oficial português, foi enviado à Guiana Francesa para resolver uma disputa de fronteira. Voltou com mudas de café contrabandeadas, supostamente escondidas num buquê dado pela esposa do governador francês. A partir do Pará, o café desceu pelo Maranhão, Bahia, Rio de Janeiro e chegou a São Paulo, onde encontrou o solo e o clima perfeitos.
Em um século, o Brasil se tornou o maior produtor do mundo. Ainda é. Um terço do café do planeta sai daqui. A palavra café é uma das poucas que todo brasileiro usa várias vezes por dia sem pensar que está falando árabe.
III
O que fica
De qahwa a café, a palavra cruzou o deserto, o Mediterrâneo, o Atlântico e o Equador. Cada povo que adotou a bebida adaptou o nome, mas nunca o substituiu. Ninguém inventou um termo novo.
O árabe nomeou. O turco ritualizou. O europeu comercializou. O brasileiro industrializou. Mas o som original persiste, quase intacto, dentro da palavra que você usa pra pedir a primeira xícara do dia.
Toda manhã, sem saber, você fala árabe medieval.
Toda palavra é um fóssil.
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