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Existe uma palavra que 200 milhões de brasileiros usam quase todo dia e ninguém sabe de onde ela veio com certeza. "Cachorro" é um dos grandes mistérios da etimologia portuguesa.
I
A raiz
A maioria das palavras portuguesas tem origem clara: latim, grego, árabe, tupi. "Cachorro" não. A teoria mais citada conecta a palavra ao céltico catiorr ou catt, que indicava "filhote" ou "animal pequeno". Os celtas habitavam a Península Ibérica antes dos romanos, e deixaram rastros no vocabulário ibérico.
Outra teoria liga "cachorro" ao latim vulgar catulus (filhote de animal), que teria passado por catiorr e chegado a cachorro por evolução fonética irregular. O problema é que essa evolução não segue os padrões normais da passagem do latim ao português.
O que torna o caso intrigante é o contraste com o resto das línguas românicas. Italiano usa cane, francês usa chien, espanhol usa perro. Todas derivam ou do latim canis ou têm etimologias próprias. "Cachorro" é exclusividade do português.
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"Cachorro: voz de origem obscura, talvez pré-romana." Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.
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II
A viagem
Em latim clássico, o cão era canis. A palavra deu origem ao italiano cane, ao francês chien, ao romeno câine. No espanhol, canis sobreviveu como can (pouco usado hoje), mas foi substituído por perro, cuja etimologia também é obscura (possivelmente onomatopaica, imitando o som do animal chamando o rebanho).
O português seguiu um caminho diferente de todos. Manteve "cão" como forma culta e elevada, mas adotou "cachorro" como forma popular e dominante. Em Portugal medieval, "cachorro" designava especificamente o filhote de cão, não o animal adulto. "Cão" era o adulto, "cachorro" era o novo.
No Brasil, a distinção entre cão e cachorro se dissolveu. "Cachorro" virou o termo universal para qualquer cão de qualquer idade. "Cão" ficou restrito a contextos formais, literários ou religiosos ("cão" como sinônimo de diabo, por exemplo). A palavra popular venceu a erudita.
A hipótese céltica é a mais aceita, mas não é consenso. Os celtas (celtiberos) habitavam a Ibéria antes da conquista romana. Deixaram topônimos (Coimbra vem do céltico Conimbriga), vocabulário agrícola e termos para animais. Catiorr teria sobrevivido no latim vulgar ibérico e evoluído para cachorro no português nascente.
Outra linha de investigação propõe origem expressiva ou onomatopaica: o som "cach-" imitando o latido curto de um filhote. Essa teoria tem menos apoio acadêmico, mas é difícil de refutar completamente.
O que se sabe é que "cachorro" aparece em textos portugueses a partir do século XIII, já com a forma atual. No Cancioneiro da Biblioteca Nacional, compilado no século XIII e XIV, a palavra já circulava. Não é criação moderna.
O Brasil levou "cachorro" ao extremo. Compõe expressões como "vida de cachorro" (vida difícil), "cachorro quente" (hot dog, adaptado do inglês), "filho de cachorro" (xingamento suavizado). A palavra se incrustou na fala cotidiana com tanta força que "cão" soa estranho, distante, quase estrangeiro.
III
O que fica
"Cachorro" é uma palavra sem certidão de nascimento. Os linguistas têm hipóteses, mas nenhuma prova definitiva. É raro. A maioria das palavras de uso tão frequente tem origem documentada.
O animal mais presente na vida brasileira carrega um nome que ninguém consegue rastrear completamente. É como se o cachorro, fiel ao seu estilo, tivesse aparecido um dia na porta da língua, sem coleira, sem placa, e ficado.
Ninguém sabe de onde veio. Mas ninguém imagina o idioma sem ele.
Toda palavra é um fóssil.
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