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Em algum lugar da sua casa, provavelmente numa estante ou gaveta, há um livro pesado com mapas do mundo inteiro. Chama-se atlas. A palavra parece técnica, neutra, geográfica. Mas ela é o nome de um condenado.
Um titã grego que, por ter lutado contra os deuses olimpianos e perdido, foi sentenciado a sustentar o céu nos ombros pelo resto da eternidade. Entre o castigo de um deus e um livro de mapas escolares, a história é surpreendente.
I
A raiz
Átlas é um titã da mitologia grega, filho de Jápeto e da oceânide Clímene, irmão de Prometeu. Quando os titãs se rebelaram contra Zeus e os olimpianos na Titanomaquia, a guerra cósmica que definiu a ordem divina do universo grego, os titãs perderam.
Zeus os condenou ao Tártaro, a profundeza do submundo. Para Atlas, a punição foi diferente e mais visível: ele foi posto nos limites do mundo, a oeste, e condenado a sustentar o ouranós, o céu, para que não desabasse sobre a terra.
O nome Átlas provavelmente deriva do verbo tlaô (suportar, aguentar, sustentar), mais o prefixo a- intensivo. A etimologia é disputada, mas o sentido físico de "o que sustenta" é consensual. Em Hesíodo, que registra a história na Teogonia (séc.
VIII a.C.), Atlas fica no extremo ocidente do mundo, onde o sol se põe, na região que os gregos identificavam com o oceano além das colunas de Hércules, o que hoje é o Atlântico.
A palavra Atlântico vem diretamente de Atlas: o oceano que fica ao lado da montanha de Atlas, ou na região onde o titã se encontrava. O Mar Atlântico, as Montanhas do Atlas no norte da África, a Atlântida, tudo pertence à mesma família. Atlas era o nome do canto mais remoto e misterioso do mundo grego.
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"Atlas sustenta com a cabeça e com os braços infatigáveis a ampla abóbada do céu, de pé, no extremo da terra, diante das Hespérides de voz clara, esse destino lhe foi atribuído pelo Zeus sábio." Hesíodo, Teogonia, vv. 517–520, séc. VIII a.C.
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II
A viagem
A palavra fez uma viagem inesperada pela anatomia antes de chegar à cartografia. No século II d.C., o médico grego Galeno descreveu a primeira vértebra cervical, a que fica no topo da coluna vertebral, imediatamente abaixo do crânio, como átlas.
A comparação era elegante: assim como o titã sustentava o céu na cabeça, essa vértebra sustenta o peso do crânio. O nome anatômico atlas é usado até hoje em medicina em todo o mundo.
Quando um médico fala em "fratura do atlas", fala nessa vértebra, não no titã, mas o titã está lá dentro da terminologia.
A viagem para os livros de mapas aconteceu no final do século XVI, através do cartógrafo flamengo Gerardus Mercator.
Mercator é o mesmo que criou a projeção cartográfica que leva seu nome e que ainda domina os mapas do mundo, a projeção que distorce as áreas próximas aos polos para manter os ângulos corretos.
Em 1595, um ano após a morte de Mercator, seus filhos publicaram postumamente a coleção completa de mapas que ele tinha preparado. No frontispício da obra, havia uma gravura do titã Atlas segurando o globo celeste.
O livro se chamava Atlas sive Cosmographicae Meditationes de Fabrica Mundi et Fabricati Figura, "Atlas, ou Meditações Cosmográficas sobre a Forma do Mundo e a Figura do Construído".
Mercator escolheu Atlas como símbolo porque o titã representava o conhecimento do cosmos, a capacidade de sustentar o mundo inteiro na mente. Era uma escolha humanista: o cartógrafo como aquele que sustenta o mundo com o entendimento, não com os músculos.
A palavra se transferiu da imagem para o objeto: o livro com a figura de Atlas tornou-se "um atlas", e qualquer coleção de mapas subsequente recebeu o mesmo nome.
Em português, atlas chegou com a tradição cartográfica europeia. O Houaiss registra o uso do século XVII em diante. O plural atlas é invariável, não se diz atlases no uso padrão, embora a forma apareça em alguns dicionários como variante. O sentido se generalizou para qualquer coleção sistemática de imagens ou dados organizados por categorias: atlas de anatomia, atlas linguístico, atlas climático.
A raiz Átlas ainda pulsa em muitas palavras do português e das línguas europeias. Atlético, de Athlos (competição, mas associado ao esforço físico atribuído ao titã na tradição popular), Atlante (a estátua masculina que funciona como coluna sustentando entablamentos, o equivalente arquitetônico do atlas), e a própria palavra Atlântico, que define o oceano que separa os continentes.
III
O que fica
Há uma ironia sutil na trajetória de Atlas. O titã foi condenado a sustentar o peso do mundo como punição por sua rebeldia. Mas o cartógrafo Mercator reinventou o gesto: segurar o mundo na capa de um livro passou a significar não opressão, mas conhecimento. A punição virou símbolo de capacidade intelectual.
Todo atlas de mapas repete essa inversão silenciosa. O livro que uma criança abre para estudar geografia, a aplicação que projeta rotas no celular, o arquivo de imagens médicas que um radiologista consulta, todos descendem diretamente do titã grego que Zeus condenou a carregar o céu nos ombros. A derrota de um deus virou metáfora de quem quer entender onde está no mundo.
A palavra guardou essa ambiguidade: sustenta e pesa ao mesmo tempo. Carregar o atlas é carregar a responsabilidade de saber. Quem tem o mapa tem o peso de orientar.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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