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Toda vez que um jornal publica "assassino preso", está usando uma palavra que nasceu numa fortaleza no topo de uma montanha no Irã, dentro de uma seita secreta que aterrorizou o Oriente Médio por dois séculos.
I
A raiz
Hashshashin (حشاشين) é o plural árabe de hashshash, que significa "usuário de haxixe". A palavra era usada como insulto ou rótulo para os membros da Ordem dos Assassinos, um ramo da seita ismailita nizari que operou entre os séculos XI e XIII a partir de fortalezas nas montanhas da Pérsia e da Síria.
A conexão entre os assassinos e o haxixe é polêmica. Marco Polo, que visitou a região no século XIII, descreveu um "jardim do paraíso" onde o líder da seita drogava jovens recrutas com haxixe e os convencia de que tinham visitado o paraíso. Muitos historiadores modernos consideram essa narrativa exagerada ou fabricada. Mas o nome grudou.
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"O Velho da Montanha fazia seus seguidores provarem o paraíso para que morressem sem medo." Marco Polo, Il Milione, c. 1300.
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II
A viagem
A Ordem dos Assassinos foi fundada por Hassan-i Sabbah em 1090, quando ele tomou a fortaleza de Alamut, no norte da Pérsia (atual Irã). Alamut ficava no topo de uma montanha quase inacessível, uma fortaleza natural que dominou o vale por quase dois séculos.
Hassan-i Sabbah era um teólogo ismailita que se opunha tanto ao califado sunita de Bagdá quanto ao sultanato seljúcida. Sem exército convencional, desenvolveu uma estratégia nova: em vez de guerras, eliminações cirúrgicas. Agentes treinados infiltravam-se em cortes e palácios e matavam alvos específicos, geralmente com uma adaga, geralmente em público, geralmente sem tentar fugir.
A morte pública era o ponto. O objetivo não era só eliminar o alvo, mas aterrorizar todos que assistissem. Os fidai (devotos, em árabe) aceitavam a morte como parte da missão. Morriam sorrindo, segundo os relatos da época.
Os cruzados europeus encontraram os Assassinos na Síria, onde outro líder da seita, Rashid ad-Din Sinan (o "Velho da Montanha" que Marco Polo descreveria depois), controlava várias fortalezas. Os Assassinos mataram Conrad de Montferrat, rei de Jerusalém, em 1192. A Europa ficou horrorizada e fascinada.
Os cruzados trouxeram a palavra de volta. Do árabe hashshashin, o francês derivou assassin. O italiano fez assassino. O inglês adotou assassin. O português ficou com assassino. Em todos os casos, o significado se generalizou: deixou de designar membros de uma seita específica e passou a significar qualquer pessoa que mata outra.
A Ordem terminou em 1256, quando os mongóis de Hulagu Khan destruíram Alamut e exterminaram a liderança. A seita acabou. Mas a palavra que nasceu dela se tornou universal. Nenhum idioma europeu inventou um substituto. O árabe nomeou o ato, e o mundo aceitou.
A generalização da palavra apagou a especificidade histórica. Ninguém que diz "assassino" pensa em fortalezas persas, missões suicidas ou haxixe. A palavra ficou genérica, neutra, dicionarizada. Mas toda vez que ela aparece num título de jornal, a sombra de Alamut está lá.
III
O que fica
"Assassino" é uma das raras palavras que nasce de um grupo específico e se universaliza completamente. Os Hashshashin não existem mais há oito séculos. A fortaleza de Alamut é ruína. A seita é capítulo de livro de história. Mas o nome que os inimigos davam aos seus membros sobreviveu em todas as línguas europeias.
A ironia é que hashshashin era xingamento. Era o rótulo que os adversários da seita usavam para deslegitimá-la: "drogados", "viciados". A palavra nasceu como arma retórica contra eles. E agora é a única coisa que restou deles no vocabulário do mundo.
O insulto sobreviveu à seita. Geralmente é assim que funciona.
Toda palavra é um fóssil.
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