A Origem das Palavras #019 · Assassino
A Origem das Palavras

EDIÇÃO Nº 019

A PALAVRA DE HOJE

Assassino

/a.sa.ˈsi.nu/

Do árabe. Hashshashin (os que usam haxixe)

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A LINHA DO TEMPO

pérsia → seita ismailita → cruzadas → europa

Toda vez que um jornal publica "assassino preso", está usando uma palavra que nasceu numa fortaleza no topo de uma montanha no Irã, dentro de uma seita secreta que aterrorizou o Oriente Médio por dois séculos.

I

A raiz

Hashshashin (حشاشين) é o plural árabe de hashshash, que significa "usuário de haxixe". A palavra era usada como insulto ou rótulo para os membros da Ordem dos Assassinos, um ramo da seita ismailita nizari que operou entre os séculos XI e XIII a partir de fortalezas nas montanhas da Pérsia e da Síria.

A conexão entre os assassinos e o haxixe é polêmica. Marco Polo, que visitou a região no século XIII, descreveu um "jardim do paraíso" onde o líder da seita drogava jovens recrutas com haxixe e os convencia de que tinham visitado o paraíso. Muitos historiadores modernos consideram essa narrativa exagerada ou fabricada. Mas o nome grudou.

"O Velho da Montanha fazia seus seguidores provarem o paraíso para que morressem sem medo." Marco Polo, Il Milione, c. 1300.

II

A viagem

A Ordem dos Assassinos foi fundada por Hassan-i Sabbah em 1090, quando ele tomou a fortaleza de Alamut, no norte da Pérsia (atual Irã). Alamut ficava no topo de uma montanha quase inacessível, uma fortaleza natural que dominou o vale por quase dois séculos.

Hassan-i Sabbah era um teólogo ismailita que se opunha tanto ao califado sunita de Bagdá quanto ao sultanato seljúcida. Sem exército convencional, desenvolveu uma estratégia nova: em vez de guerras, eliminações cirúrgicas. Agentes treinados infiltravam-se em cortes e palácios e matavam alvos específicos, geralmente com uma adaga, geralmente em público, geralmente sem tentar fugir.

A morte pública era o ponto. O objetivo não era só eliminar o alvo, mas aterrorizar todos que assistissem. Os fidai (devotos, em árabe) aceitavam a morte como parte da missão. Morriam sorrindo, segundo os relatos da época.

Os cruzados europeus encontraram os Assassinos na Síria, onde outro líder da seita, Rashid ad-Din Sinan (o "Velho da Montanha" que Marco Polo descreveria depois), controlava várias fortalezas. Os Assassinos mataram Conrad de Montferrat, rei de Jerusalém, em 1192. A Europa ficou horrorizada e fascinada.

Os cruzados trouxeram a palavra de volta. Do árabe hashshashin, o francês derivou assassin. O italiano fez assassino. O inglês adotou assassin. O português ficou com assassino. Em todos os casos, o significado se generalizou: deixou de designar membros de uma seita específica e passou a significar qualquer pessoa que mata outra.

A Ordem terminou em 1256, quando os mongóis de Hulagu Khan destruíram Alamut e exterminaram a liderança. A seita acabou. Mas a palavra que nasceu dela se tornou universal. Nenhum idioma europeu inventou um substituto. O árabe nomeou o ato, e o mundo aceitou.

A generalização da palavra apagou a especificidade histórica. Ninguém que diz "assassino" pensa em fortalezas persas, missões suicidas ou haxixe. A palavra ficou genérica, neutra, dicionarizada. Mas toda vez que ela aparece num título de jornal, a sombra de Alamut está lá.

III

O que fica

"Assassino" é uma das raras palavras que nasce de um grupo específico e se universaliza completamente. Os Hashshashin não existem mais há oito séculos. A fortaleza de Alamut é ruína. A seita é capítulo de livro de história. Mas o nome que os inimigos davam aos seus membros sobreviveu em todas as línguas europeias.

A ironia é que hashshashin era xingamento. Era o rótulo que os adversários da seita usavam para deslegitimá-la: "drogados", "viciados". A palavra nasceu como arma retórica contra eles. E agora é a única coisa que restou deles no vocabulário do mundo.

O insulto sobreviveu à seita. Geralmente é assim que funciona.

Toda palavra é um fóssil.

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