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A mesma palavra pesa boi na fazenda e endereça sua caixa de entrada. Antes de virar tecla, arroba era medida árabe, a quarta parte do quintal, uns 15 quilos rabiscados nas faturas dos mercadores. Vale seguir a rota comercial que levou a balança ibérica até o primeiro e-mail da história.
Repare no gesto: você dita um endereço de e-mail em voz alta e, no meio dele, pronuncia o nome de um peso. Arroba. A mesma palavra que o leiloeiro grita no interior do Brasil quando o boi sobe na balança. De um lado, quinze quilos de carne. Do outro, um sinal gráfico espremido entre o seu nome e o do provedor.
A coincidência é só aparente. Entre a balança da fazenda e a caixa de entrada existe uma rota comercial de mil anos. Ela começa no árabe, atravessa os portos ibéricos, dorme quase um século nas máquinas de escrever e desemboca no primeiro e-mail da história.
I
A raiz
Em árabe, ar-rubʿ (الرُّبْع) significa a quarta parte. A raiz é a mesma de arbaʿa, o número quatro. Quarta parte de quê? Do quintal, adaptação do qinṭār, a medida graúda que os mercadores árabes usavam nos portos do Mediterrâneo para pesar grão, lã e azeite.
O detalhe saboroso é que o próprio qinṭār também era empréstimo. Veio do latim centenarium, o peso de cem libras, passando pelo grego bizantino. Uma medida romana que virou árabe e, séculos depois, voltaria às línguas latinas pela porta da Península Ibérica.
Quando Al-Andalus se instalou na península, a partir do século VIII, as medidas vieram junto com os mercados. O ouvido ibérico escutava ar-rubʿ nas feiras e colou o artigo ao nome: arroba. O mesmo processo soldou al-kayl em alqueire e ar-raṭl em arrátel. O artigo árabe fossilizou dentro da palavra, como em algodão, alface, açúcar e armazém.
O valor nunca foi um só. Em Portugal, a arroba valia 32 arráteis, perto de 14,7 quilos. Em Castela, rondava os 11,5. Era medida de balança de feira, e cada praça calibrava a sua. O Brasil herdou a régua portuguesa e arredondou: a arroba do boi vale 15 quilos até hoje, e é nela que o país inteiro cota a carne.
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"Ali, uma @ de vinho, que é um trigésimo de barril, vale 70 ou 80 ducados." Carta do mercador florentino Francesco Lapi, enviada de Sevilha em 1536, o registro mais antigo já identificado do símbolo @ num documento comercial.
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II
A viagem
O símbolo nasceu da pressa. Quem escrevia a mesma unidade dezenas de vezes por dia acabava desenhando cada vez menos. Uma das hipóteses aponta para os copistas medievais, que teriam fundido as letras do latim ad, "junto a", num único floreio: o a abraçado pela própria cauda. A outra aponta direto para os livros-caixa dos mercadores.
Nas faturas ibéricas, o rabisco marcava a arroba. Dez arrobas de lã viravam "10@ de lã", e qualquer comprador da praça entendia na hora. Foi um historiador italiano, Giorgio Stabile, quem encontrou no ano 2000 a carta de Lapi: ali, o mesmo sinal valia por anfora, a medida de vinho dos toscanos. Ânfora num porto, arroba no outro. O desenho era o mesmo, e o ofício também: abreviar unidade de mercadoria em papel de comércio.
O inglês adotou o sinal com outro emprego, o "commercial at" das listas de preço: "12 jardas @ 2 xelins", doze jardas a dois xelins cada. Foi por causa da contabilidade que o símbolo ganhou tecla nas máquinas de escrever no fim do século XIX. E ali ficou, meio esquecido, um sinal de guarda-livros numa era que já não escrevia fatura à mão.
Até que, em 1971, um engenheiro chamado Ray Tomlinson precisou resolver um problema novo. Ele testava a troca de mensagens entre computadores da ARPANET, a rede que antecedeu a internet, e buscava um caractere para separar o nome da pessoa do nome da máquina. Tinha que ser um sinal que nunca aparecesse em nome de gente.
Tomlinson olhou o teclado do seu teletipo Modelo 33 e escolheu o rabisco dos mercadores. O @ estava livre e ainda por cima já significava "em": fulano @ tal máquina, fulano em tal máquina. O sinal de pesar mercadoria virou o eixo do endereço digital sem mudar uma curva do desenho.
Cada língua deu um apelido ao símbolo ressuscitado. O holandês viu um rabinho de macaco, apenstaartje. O alemão viu o macaco inteiro pendurado no traço, Klammeraffe. O italiano viu um caracol, chiocciola. O hebraico viu um strudel enrolado. O português e o espanhol não precisaram inventar nada: o desenho já tinha nome havia quinhentos anos. Arroba.
III
O que fica
Toda manhã de pregão, a cotação do boi gordo sai em reais por arroba, e o pecuarista faz as contas de 15 em 15 quilos. Na mesma manhã, milhões de pessoas ditam endereços de e-mail com a mesma palavra no meio. Poucos vocábulos trabalham em dois mundos tão distantes ao mesmo tempo, a poeira do curral e o servidor de dados.
A palavra sobreviveu porque nunca saiu do seu posto de origem: o registro de quem compra e vende. Ela nasceu numa balança de porto, cresceu em fatura de lã, atravessou o Atlântico em contrato de gado e terminou no cabeçalho das mensagens eletrônicas. Mudou de emprego várias vezes. De endereço profissional, nunca.
E o novo ofício repete o antigo com precisão curiosa. Na fatura, o @ dizia quanto e a quê: dez sacas @ tanto. No e-mail, ele diz quem e onde: fulano @ tal domínio. É um sinal de localização comercial que passou a localizar pessoas. O rabisco que apontava mercadoria numa praça de Sevilha aponta você na rede.
Enquanto as outras línguas olham para o desenho e enxergam bichos, caracóis e doces, o português olha e enxerga o que sempre esteve lá: uma medida. Dentro de cada endereço eletrônico dorme uma fração árabe, a quarta parte de um peso que os romanos chamavam de cem libras e que o sertão brasileiro ainda pendura no gancho da balança.
Na próxima vez que ditar seu e-mail em voz alta, repare no que a boca faz sem pedir licença: entre o seu nome e o do provedor, ela pesa quinze quilos.
Toda palavra é um fóssil.
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