A Origem das Palavras #004 · Algoritmo
A Origem das Palavras

EDIÇÃO Nº 004

A PALAVRA DE HOJE

Algoritmo

/aw.go.ˈɾit.mu/

Do árabe. Al-Khwarizmi (o de Khwarezm)

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A LINHA DO TEMPO

pérsia → bagdá → espanha moura → europa → silicon valley

Seu celular executa bilhões deles por segundo. O Instagram decide o que você vê com eles. O GPS calcula sua rota usando eles. E o nome que você dá a essas sequências de instruções é, na verdade, o sobrenome deformado de um matemático persa do século IX.

I

A raiz

Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi nasceu por volta de 780 d.C. na região de Khwarezm, atual Uzbequistão. O sobrenome não era sobrenome. Era um indicativo geográfico: "o de Khwarezm", como quem diz "o mineiro" ou "o carioca". Al-Khwarizmi trabalhou na Casa da Sabedoria, em Bagdá, a maior biblioteca e centro de tradução do mundo islâmico medieval.

Ali ele escreveu o livro que mudaria a matemática para sempre: Kitab al-Jabr wa-l-Muqabala (O Livro da Restauração e do Balanceamento). Desse título saiu outra palavra que você conhece: álgebra. Mas do nome do autor saiu algo ainda maior.

Quando o livro foi traduzido para o latim no século XII, os tradutores europeus não sabiam como lidar com "al-Khwarizmi". Latinizaram para Algoritmi ou Algorismus. E como os métodos de cálculo ensinados no livro eram revolucionários, o nome do autor virou sinônimo do método.

"Quando nada sobra e nada fica faltando, o problema está resolvido." Al-Khwarizmi, no Kitab al-Jabr, século IX.

II

A viagem

Bagdá no século IX era o centro intelectual do mundo. Enquanto a Europa mergulhava na fragmentação pós-Império Romano, o califado abássida traduzia Aristóteles, Euclides, Ptolomeu e Galeno para o árabe. Al-Khwarizmi trabalhava nesse ambiente, cercado de astrônomos indianos, filósofos gregos traduzidos e matemáticos persas.

O que ele fez no Kitab al-Jabr foi sistematizar a resolução de equações lineares e quadráticas em etapas claras, reproduzíveis, universais. Não usava símbolos. Escrevia tudo por extenso, em prosa árabe. Mas a lógica era a mesma que hoje roda nos processadores: dado um problema, siga estas instruções nesta ordem e você chega à resposta.

O livro atravessou o Mediterrâneo pela Espanha moura. Em Toledo, no século XII, tradutores como Roberto de Chester e Gerardo de Cremona verteram textos árabes para o latim. Foi nesse processo que al-Khwarizmi virou Algoritmi. O nome do homem se confundiu com o nome do método. Em latim medieval, "algorismus" passou a significar qualquer sistema de cálculo com algarismos indo-arábicos (outra contribuição do mesmo livro).

Durante séculos, "algorismo" designou especificamente o uso dos numerais 0, 1, 2, 3... em vez dos algarismos romanos. Era uma revolução prática: tente fazer uma divisão longa com números romanos e você entende por quê. A Europa levou quatrocentos anos pra abandonar o sistema romano. Os "algoristas" brigavam com os "abacistas" em debates que pareciam religiosos.

No século XVII, Leibniz e Newton usavam a palavra para descrever procedimentos de cálculo. No século XX, Alan Turing formalizou o conceito: um algoritmo é uma sequência finita de instruções que transforma uma entrada em uma saída. A definição de Turing é de 1936. O conceito de al-Khwarizmi é de 820.

Hoje, quando o Google ordena resultados de busca, quando o Spotify monta sua playlist, quando um carro autônomo desvia de um obstáculo, o que está rodando por baixo é um algoritmo. O nome de um matemático de Khwarezm, deformado pelo latim, adotado pelo inglês, globalizado pelo Vale do Silício.

III

O que fica

Um homem nasceu numa cidade que hoje é ruína no deserto do Uzbequistão. Escreveu um livro em Bagdá. O livro cruzou o Mediterrâneo. O nome do autor virou o nome do método. O método virou a base da computação moderna.

Toda vez que alguém reclama do "algoritmo" das redes sociais, está pronunciando, sem saber, o nome de um persa que viveu há 1.200 anos. A palavra não descreve apenas uma sequência de instruções. Ela carrega a prova de que o mundo digital tem raízes no deserto medieval.

O futuro lembra o passado. Mesmo quando finge que inventou tudo sozinho.

Toda palavra é um fóssil.

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