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Ostras, chocolate, pimenta, vinho, mel, morangos. A lista de afrodisíacos circula há séculos com a mesma certeza e a mesma imprecisão científica. A palavra que nomeia essas substâncias é antiga, mas os gregos que a criaram a entendiam de forma muito mais abrangente do que hoje.
Para eles, ta aphrodísia não era apenas uma lista de comidas excitantes. Era tudo que pertencia ao domínio de Afrodite: o prazer, a beleza, o desejo, e os riscos que vêm com tudo isso.
I
A raiz
Aphrodíte é uma das divindades mais antigas e mais complexas do panteão grego. O nome é provavelmente pré-grego: a etimologia exata é disputada desde a Antiguidade.
O próprio Platão, em O Banquete, brincou com duas interpretações: Aphrodite Urânia (celeste, filha de Urano, surgida da espuma do mar) e Aphrodite Pandemos (popular, filha de Zeus e Dione).
Hesíodo, na Teogonia, conta a versão mais dramática: quando Cronos cortou os genitais de Urano e os jogou no mar, da espuma (aphros) nasceu Afrodite. Daí a etimologia popular: aphros (espuma) + dýtē (que emergiu).
Linguistas modernos discutem se essa é a etimologia real ou uma etimologia popular inventada pelos próprios gregos, mas ela é antiga e influente.
O adjetivo aphrodísiakos designava tudo que pertencia à esfera de Afrodite. Os gregos usavam ta aphrodísia, as coisas de Afrodite, o neutro plural, para falar das práticas sexuais em geral. Não era um eufemismo: era simplesmente nomear o domínio de uma deusa. O amor físico era território divino, e esse território tinha dono.
O substantivo derivado aphrodísiakos pharmakon, droga, remédio ou substância afrodisíaca, aparece em textos médicos gregos antigos. Dioscórides, o médico militar grego do século I d.C. cujo De Materia Medica foi o mais influente herbário da Antiguidade até o Renascimento, lista diversas plantas classificadas como aphrodísia, estimulantes do desejo. A palavra já era técnica na medicina antiga.
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"Ceres e Baco são os servos de Vênus: sem pão e sem vinho, o amor enfraquece." Terêncio, Eunuchus, ato IV, séc. II a.C.
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II
A viagem
O latim adotou tanto o nome da deusa quanto o adjetivo derivado. Venus era a deusa latina equivalente a Afrodite, e seu nome originou veneração (no sentido original de adoração a uma divindade) e venéreo (pertencente à esfera sexual, de onde "doenças venéreas"). Mas o adjetivo grego aphrodisiacus também entrou no latim médico e filosófico, especialmente em textos que traduziam ou resumiam autores gregos.
Na medicina medieval árabe, que preservou e expandiu o saber grego, a categoria das substâncias que estimulam o desejo sexual foi sistematizada de forma detalhada. Médicos como Avicena (Ibn Sina, séc.
X-XI) descreveram em seu Canon Medicinae substâncias que aumentavam o desejo e a capacidade sexual, usando a terminologia derivada de Aphrodite. O texto de Avicena foi traduzido para o latim no século XII e tornou-se referência nas universidades europeias medievais por séculos.
O português recebeu a palavra provavelmente via latim médico e renascentista. Afrodisíaco aparece em textos portugueses de medicina e filosofia natural a partir do século XVII. Inicialmente adjetivo ("substância afrodisíaca"), funcionalizou-se como substantivo ao longo do uso: "um afrodisíaco", "os afrodisíacos".
Em outras línguas europeias a trajetória é paralela: aphrodisiaque em francês, aphrodisiac em inglês, afrodisiaco em espanhol e italiano. O nome de Afrodite percorreu toda a tradição médica ocidental e chegou ao século XXI intacto, ainda nomeando substâncias e práticas que ela, segundo os gregos, governava por direito divino.
Há um cognato menos óbvio: Hermafrodita, ou hermafrodito, o ser que possui os dois sexos. Filho de Hermes e Afrodite, Hermaphroditos era, na mitologia grega, um jovem de beleza extraordinária que foi fundido com uma ninfa que o amava e adquiriu a natureza de ambos. O nome combina Hermes e Aphrodite. A palavra sobreviveu na biologia (hermafroditismo), na mitologia e no uso coloquial.
III
O que fica
A lista moderna de afrodisíacos, ostras, chocolate, pimenta, canela, ginseng, tem pouco apoio científico rigoroso para a maioria de seus itens. O que a farmacologia contemporânea confirma como estimulante real é uma lista muito mais curta e menos poética do que a culinária popular sugere. Mas isso não é o mais interessante.
O mais interessante é que os gregos entendiam o desejo como território sagrado. Quando nomeavam algo como aphrodísiakos, estavam dizendo que pertencia ao domínio de uma divindade. O desejo não era uma fraqueza, não era uma perturbação, não era um pecado, era um poder que merecia culto e templo. Aphrodite tinha santuários em toda a Grécia, em Corinto, em Atenas, em Delos, em Pafos.
A palavra afrodisíaco carrega esse peso teológico silencioso. Cada vez que alguém usa o termo, invoca, sem saber, a deusa que os gregos acreditavam governar um dos impulsos mais fundamentais da vida. A espuma do mar ainda respinga, milênios depois, em cada lista de receitas promissoras.
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Toda palavra é um fóssil.
Toda palavra é um fóssil.
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