A Origem das Palavras #016 · Abacaxi
A Origem das Palavras

EDIÇÃO Nº 016

A PALAVRA DE HOJE

Abacaxi

/a.ba.ka.ˈʃi/

Do tupi. Ibá-cati (fruta que cheira)

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A LINHA DO TEMPO

tupi → fruta → problema (gíria BR)

Quando alguém diz "isso é um abacaxi", quase nunca está falando de fruta. Está falando de um problema complicado, cheio de espinhos, difícil de resolver. A metáfora é brasileira. A palavra é tupi. E a viagem entre as duas é mais estranha do que parece.

I

A raiz

Abacaxi vem do tupi ibá-cati, que combina ibá (fruta) com cati (que recende, que cheira forte). A fruta que cheira. O nome descreve o aroma intenso do abacaxi maduro, que os tupi reconheciam de longe.

Existe outra palavra para a mesma fruta: "ananás", do tupi naná ou ananá, que significa "fruta excelente" ou "perfumada". "Ananás" é a forma usada em Portugal e na maior parte do mundo (ananas em francês, italiano, alemão, russo). "Abacaxi" é predominantemente brasileiro. Duas palavras tupi para a mesma fruta, cada uma pegando um caminho diferente.

"A fruta é das melhores que há na terra, e de tão suave cheiro que por ele se conhece onde está." Pero de Magalhães Gândavo, Tratado da Terra do Brasil, 1576.

II

A viagem

O abacaxi (Ananas comosus) é nativo da América do Sul, provavelmente da região entre o Paraguai e o sul do Brasil. Os tupi e outros povos indígenas já cultivavam a planta séculos antes da chegada europeia. Quando Colombo encontrou abacaxis no Caribe em 1493 (levados por povos indígenas que migraram do continente), ficou fascinado. Levou frutos e mudas para a Espanha.

Na Europa, o abacaxi virou símbolo de luxo e exotismo. Crescer abacaxis em estufas europeias era caríssimo e tecnicamente difícil. No século XVII e XVIII, servir abacaxi numa mesa europeia era demonstração de riqueza extrema. Na Inglaterra georgiana, existiam empresas que alugavam abacaxis para decorar mesas de banquete: os anfitriões exibiam a fruta, mas não a cortavam. A fruta voltava para o fornecedor no dia seguinte.

O nome ananas se espalhou pela Europa porque os primeiros relatos usavam a forma tupi-guarani naná. O espanhol adotou piña (por semelhança visual com a pinha), e o inglês derivou pineapple da mesma associação. Mas a maioria dos idiomas ficou com alguma variação de ananas.

No Brasil, as duas formas coexistiram. Com o tempo, "abacaxi" se firmou como a forma dominante no português brasileiro, enquanto "ananás" ficou restrito a Portugal e a contextos regionais específicos no Norte e Nordeste do Brasil.

A virada para gíria é puramente brasileira. "Descascar o abacaxi" aparece como expressão popular no início do século XX, significando resolver um problema difícil. A metáfora é visual e tátil: o abacaxi é coberto de espinhos, é trabalhoso de descascar, exige cuidado e paciência. Transformou-se em sinônimo de qualquer situação complicada.

"Isso é um abacaxi" expandiu o significado: não é só algo difícil de resolver, mas algo que ninguém quer. Uma herança indesejada, um projeto problemático, uma responsabilidade que todo mundo empurra pra frente.

III

O que fica

O abacaxi fez dois caminhos simultâneos. Como fruta, conquistou o mundo inteiro. Como palavra brasileira, ficou enraizada no território, ganhando um segundo sentido que só faz sentido em português.

É uma das poucas palavras que carrega uma metáfora exclusiva do Brasil. Nenhum outro idioma transformou o nome do abacaxi em sinônimo de problema. A gíria é local, intransferível, intraduzível.

A fruta viaja. A metáfora, não. E essa diferença diz tudo sobre como a língua constrói significados que só pertencem a quem os inventou.

Toda palavra é um fóssil.

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